Começou assim: eu subi as escadas e lá estava você, querendo parecer jovem com uma camiseta brega manchada de pasta de dente. Eu caí da escada e demorei anos pra me levantar. Eu te amava com uma mistura de todos os meus personagens e, por isso, tão intensamente. Eu era uma menina deslumbrada que amava ver suas invenções por aí, era uma menina carente que amava seu jeito de pai, uma mulher em formação que se formou com você, uma depressiva neurótica que precisava das suas piadas que deixavam tudo leve, até sua ausência e impossibilidade eu amava com toda a minha vontade de grudar em você pra sempre. Até que cheguei ao ponto de te amar sei lá por que, o que deve ser o verdadeiro amor. Eu nunca dormi de verdade ao seu lado para não perder nenhum dos segundos rápidos e preciosos que você me dava. Eu queria suas malas perdidas e suas lacunas falsamente calmas num canto descascado de uma sala morta, esperando a minha vida e a minha cor. Agora elas estão lá, e eu nem sinto vontade de saber onde. Por que raios você foi ultrapassar a linha da minha espera como alguém que testa sem intensidade o meu amor? Um dia seu cheiro começou a me dar um azedo na alma. Seu jeito, uma preguiça de me encantar. Suas palavras, um zumbido chato que me animava a prestar atenção em outra coisa. Era o instinto me dizendo que não dava mais pra sofrer. Amor também morre de saudade, sabia? E eu tinha saudade de te amar pura. Depois de levantar duzentas vezes e ir para o canto do ringue, cuspir sangue e ouvir a torcida dentro do meu coração gritar pedindo mais, eu fui a nocaute. Você sabia melhor do que ninguém que a felicidade me esmagava e eu ficava ainda mais carente quando ganhava carinho. Por isso você era em doses homeopáticas a pessoa mais carinhosa do mundo e também o ser mais frio do planeta. Muito em pouco, o máximo no mínimo, quase nunca pra sempre, nunca mais todos os dias. Mas agora você se distrai com as três passagens que comprou: uma para você e duas para a sua nova namoradinha, que é tão agraciada com culotes que precisa de dois lugares no avião. Ela não me parece dessas mulheres vaidosas mas, caso seja, e caso use cremes na bunda, sua nécessaire provavelmente será despachada. Não é inveja, nem ciúme, nem dor, é cansaço dessa vida banal que me arrota na cara toda vez que eu engulo ar para aumentar ainda mais a minha intensidade. Por que as pessoas são assim tão esquecíveis e passageiras? Por que planejar uma agenda de motivos para não ser de alguém com medo de se perder? É bode de imaginar patas grosseiras e mal cuidadas de elefante caminhando por seu assoalho que brilha vida nova, é tristeza em saber que suas mãos inchadas do batuque nunca mais vão me assumir, mas desfilam com a porpeta por esse mundinho idiota e fechado em que vivemos, é nojo de imaginar você adentrando naquela caverna gigante, peluda e úmida. Uga-buga para todos vocês, e fodam-se.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Moby dick invade Nova York
Começou assim: eu subi as escadas e lá estava você, querendo parecer jovem com uma camiseta brega manchada de pasta de dente. Eu caí da escada e demorei anos pra me levantar. Eu te amava com uma mistura de todos os meus personagens e, por isso, tão intensamente. Eu era uma menina deslumbrada que amava ver suas invenções por aí, era uma menina carente que amava seu jeito de pai, uma mulher em formação que se formou com você, uma depressiva neurótica que precisava das suas piadas que deixavam tudo leve, até sua ausência e impossibilidade eu amava com toda a minha vontade de grudar em você pra sempre. Até que cheguei ao ponto de te amar sei lá por que, o que deve ser o verdadeiro amor. Eu nunca dormi de verdade ao seu lado para não perder nenhum dos segundos rápidos e preciosos que você me dava. Eu queria suas malas perdidas e suas lacunas falsamente calmas num canto descascado de uma sala morta, esperando a minha vida e a minha cor. Agora elas estão lá, e eu nem sinto vontade de saber onde. Por que raios você foi ultrapassar a linha da minha espera como alguém que testa sem intensidade o meu amor? Um dia seu cheiro começou a me dar um azedo na alma. Seu jeito, uma preguiça de me encantar. Suas palavras, um zumbido chato que me animava a prestar atenção em outra coisa. Era o instinto me dizendo que não dava mais pra sofrer. Amor também morre de saudade, sabia? E eu tinha saudade de te amar pura. Depois de levantar duzentas vezes e ir para o canto do ringue, cuspir sangue e ouvir a torcida dentro do meu coração gritar pedindo mais, eu fui a nocaute. Você sabia melhor do que ninguém que a felicidade me esmagava e eu ficava ainda mais carente quando ganhava carinho. Por isso você era em doses homeopáticas a pessoa mais carinhosa do mundo e também o ser mais frio do planeta. Muito em pouco, o máximo no mínimo, quase nunca pra sempre, nunca mais todos os dias. Mas agora você se distrai com as três passagens que comprou: uma para você e duas para a sua nova namoradinha, que é tão agraciada com culotes que precisa de dois lugares no avião. Ela não me parece dessas mulheres vaidosas mas, caso seja, e caso use cremes na bunda, sua nécessaire provavelmente será despachada. Não é inveja, nem ciúme, nem dor, é cansaço dessa vida banal que me arrota na cara toda vez que eu engulo ar para aumentar ainda mais a minha intensidade. Por que as pessoas são assim tão esquecíveis e passageiras? Por que planejar uma agenda de motivos para não ser de alguém com medo de se perder? É bode de imaginar patas grosseiras e mal cuidadas de elefante caminhando por seu assoalho que brilha vida nova, é tristeza em saber que suas mãos inchadas do batuque nunca mais vão me assumir, mas desfilam com a porpeta por esse mundinho idiota e fechado em que vivemos, é nojo de imaginar você adentrando naquela caverna gigante, peluda e úmida. Uga-buga para todos vocês, e fodam-se.
João e (a vellha) Maria
Duas vezes eu quase morri de saudades de você. Uma quando eu vi Closer e lembrei que o amor, como deveria, não existe. E outra quando escutei sem esperar “Quem te viu, quem te vê” e lembrei que você era um pedaço charmoso de tudo o que o mundo e a vida têm de mais charmoso. Doeu lembrar ou aceitar que esse pedaço não existe mais nem no predinho azul e nem no sofá azul. Neste dia você finalmente morreu, e eu chorei de luto sem teatro, de luto não atual, de resto de luto. De um luto morto. Você namora, casou, sei lá, com a menina de bolsas e saias bonitas que não tem cara de louca. E essa é a minha vingança, porque eu sei que você é mais feliz sem loucura, mas a felicidade e a normalidade não existem. Eu ainda acho que a gente tinha alguma verdade que faz você, nem que seja a cada 100 anos, arranhar um Chico Buarque em meu luto. Um luto cheio de vida. Vez ou outra chegam aqueles seus emails que você responde por educação e são cheios de frases quase íntimas envoltas pela maior frieza do mundo. É como se a cada letra você reafirmasse que somos amigos cheios daquela inteligência de camaradas descolados e bem resolvidos que, como tudo na vida que ainda respira e tem cor, seguiram em frente. Sim, somos isso mesmo, claro. Mas eu caguei para tudo isso e fico com o seu abraço naquele fim de festa estranho em que você foi o dj e, para a minha surpresa, me fez matar a saudade do meu mundo. Eu fico com as danças que sem nenhum medo das críticas eu improvisei para o nosso espaço no universo. Dancei como uma bailarina que volta a funcionar milagrosamente, e pela última vez, numa caixinha de música quebrada. Eu fico para sempre com o que você plantou em mim, essa erva do mal. Você sabia que me tornei uma mal-humorada-pseudo- intelectual totalmente insuportável e crítica? Você ao menos era culto de verdade. Você está bem onde está, eu estou bem onde estou. Mas, como aconteceu naquele dia na praia, em que eu passei indo com meu novo amor e cruzei você vindo com seu novo amor, não tem como a gente não olhar para trás.
1 ano de namoro (quase)
A gente quase completou um ano de namoro, quase.Faltou um mês ou um pouquinho mais, não lembro.Mas hoje, sem mais nem menos, completamos um ano de separação.Ano passado essa hora, exatamente a essa hora, eu lembro bem.Eu estava no show do U2 que você não quis ir comigo e me ocupava em perguntar, de dez em dez segundos, e de dez em dez pessoas, quando é que você iria me ligar e dizer que tinha pensado melhor.Quando? Você nunca ligou, nunquinha.E eu esperei, esperei, esperei tanto tempo, nossa, como eu esperei.Acho que eu nunca esperei tanto nada em toda a minha vida.Outro dia a Myla me perguntou o que você tinha me ensinado.A gente estava conversando sobre os legados que as pessoas deixam em nossas vidas e ela quis saber qual tinha sido o seu.O coiso me ensinou a gostar de MPB e cinema europeu, o outro coiso me ensinou a gostar de sexo e restaurante caro.Teve o coisinho que me ensinou a ser engraçada e jogar frescobol. E você?Que raios me ensinou?Fiquei sem saber na hora, fiquei sem saber o que responder para a Myla.Mas hoje, no nosso aniversário de um ano separados, posso dizer que foi você quem me ensinou a lição mais importante da minha vida: você me ensinou a sofrer.Eu nunca, nunca, em vinte e sete anos de vida, tinha sofrido.Nunca. Claro, eu odiava ver meus pais quebrando o pau quando era criança, mas eu lembro que eu, pequenininha, pensava: um dia um príncipe vai me levar para longe dessa casa com gente louca que fuma demais, berra demais, desmaia e chuta vasos. Eu sofri também na escola, quando para alguém me enxergar eu tinha de promover bizarrices. Mas eu era muito nova para me separar das bizarrices e acabava também chamando a minha atenção: será que eu sou bizarra?Depois, em casa, quando eu dobrava direitinho o uniforme para o dia seguinte e me sentia um papel de parede bege que ninguém entende pra que serve, eu pensava: um dia um príncipe vai me levar pra longe dessa falta de vida, dessa falta de beleza, dessa falta de compreensão, dessa falta de cor, dessa falta de sei lá o que porque eu era novinha demais pra saber o que faltava.Esperar o raio do príncipe sempre disfarçou minha dor, sempre me refugiou dela. Mas quando você, no dia 20 de fevereiro de 2006, me mandou seguir meu caminho sozinha, fiquei sem saber como fugir da dor.Você era meu príncipe.Depois de tantos amores estranhos, pequenos, errados e tortos, finalmente eu tinha reconhecido no seu olhar centralizado e no seu sorriso espalhado, o meu príncipe. E o meu príncipe estava me dando o fora. Que porra eu ia esperar da vida agora? Quem iria me levar para longe se você não me queria mais por perto? Não teve como. Foi a primeira vez na vida que não consegui me enrolar e acabei deixando a dor vencer. Pela primeira vez a realidade falou mais alto que a fantasia. Pela primeira vez a realidade da sua ausência falou mais alto que a fantasia de anos a sua espera. Sofri pra caralho, como diz por aí quem sofre pra caralho.Mais do que livros cabeças, músicas bacanas, frases inteligentes, lugares descolados ou posições sexuais, você me ensinou o que realmente importa aprender nessa vida: que a vida pode ser uma grande, imensa e gigantesca merda.É, ela pode ser. E que não existe porra de príncipe porra nenhuma. Que nem ninguém e nem nada pode te levar para longe de nada. É isso e pronto. E é assim pra todo mundo. E pronto. Qual o drama? A dor infinita dos dias infinitos que vieram depois do dia em que você se foi pra sempre veio misturada com toda a dor que eu não senti em todos esses anos.A dor infinita dos dias infinitos que vieram depois do dia em que você se foi pra sempre veio misturada com toda a dor que eu não senti em todos esses anos. A dor do seu pé na bunda trouxe vasos jogados, bitucas eternas de cigarros em longas discussões pesadas, tardes perdidas em odiar o mundo, cabeças viradas, corredores frios, papéis de parede beges e grupinhos festivos e fechados. A nossa dor acabou sendo toda a dor que fazia fila em mim para ser sentida. E já que a porta pra realidade estava aberta, por que não sofrer também pelas criancinhas carentes, os países em guerra, a estupidez humana e a dor das juntas da minha mãe? Por que não sofrer pela condição das favelas, das prisões e da Terra? Por que não temer o aquecimento global, o ácido dos limpadores de vidro na Henrique Schaumann e as frases do Clodovil? A dor da sua partida trouxe toda a dor do mundo. De uma só vez. Mas agora já passa da meia noite. Não é mais nosso aniversário de fim e, pra te falar a verdade, eu já não sofro mais o nosso fim faz tempo. E pra te falar ainda mais a verdade, eu acho mesmo que você foi o príncipe que eu esperei a vida inteira. Você chegou e me levou embora. Levou embora a menina que tinha medo de sentir a vida e esperava uma salvação para tudo. Quem sobrou é essa desconhecida que se conhece muito bem em suas bizarrices, lê jornais todos os dias, substituiu o bege pela cor do verão, tem uns pais gente boa ainda que malucos, adora os poucos e estranhos amigos, não espera mais pelo cavalo branco mas fica ansiosa pelo início da novela e talvez esteja pronta para amar de verdade. Amar um homem e não um príncipe.
O homem da escada

Ele comia a professora de Power Ioga do 43, comia a ex-semivirgem que de tão magra a gente via os pêlos pubianos, porque o osso da bacia levantava o biquíni, e comia até a Rose, mãe da Paulinha, mulher casada havia doze anos e meio e que vivia suspirando e esticando os pés de galinha no espelho do elevador.Um belo dia, o porteiro encheu os olhos de via e contou pra minha empregada: “Ele comeu a dona Silvia na escada do prédio”.Dona Silvia não prestava nada, até cantavam pra ela da quadra lá de baixo: “Ô Siiiilvia, piraaaaanha”. Coisa que os pais devem ter ensinado, porque essa música é velha demais para estar na boca de adolescentes espinhentos que batem Playstation todos os dias. O fato é que o porteiro encheu muito os olhos de vida e continuou: “deu pra ver tudo pela câmera de segurança ela ficou de quatro e ele mandou ver.. uma, duas, três vezes”.Não sei ao certo que máquina sexual em forma de vizinho pagava uma caixinha para o porteiro sair falando pelo prédio espalhando tantos elogios ao seu desempenho, e por isso mesmo comia todo mundo, ou se aquilo era apenas uma conversa corriqueira na porta da minha cozinha, entre uma canção e outra da rádio Evangélica da Maria. Só sei que comecei a gostar tanto do papo que até sentei para ouvir melhor.O porteiro soltou uma imensa gargalhada, transbordou de vez uma louca vida dos seus olhos, e concluiu: “antes de largar a dona Sílvia lá, caída no chão, ele fez um tchauzinho para a câmera de segurança, a gente tava tudo lá, e os outros, e aplaudimos o seu Flávio de pé.”Eu não precisava ouvir mais nada, estava decidido, ia dar pra esse cara, esse cara era o cara, era o comedor, era o homem perfeito para gente se divertir um pouco enquanto o amor não vem. Era o cara capaz de esquecer o romantismo e celebrar a vida mundana.Sim, eu sou uma nova mulher, uma mulher que faz curso de astrologia, ioga, meditação, mitologia. Uma supermulher decidida a morar sozinha, a ser feliz sozinha, decidida a viajar pela Europa, decidia a nunca mais ter emprego idiota que não permita cursos divertidos, viagens e curtir a minha plena existência. Independente, espiritualizada, analisada, madura… mas francamente: o cara mandou uma, duas, três na escada, e ainda deu tchauzinho para as câmeras? Que se dane o espírito e a evolução, meu ego precisava trepar com esse ser divino e pronto.Usei a minha tática predileta para comer um homem: um dia, como quem não quer nada, numa dessas cruzadas pelo estacionamento do prédio, comentei que era escritora. Não sei explicar o que acontece quando um cara descobre que eu escrevo, é mais de meio caminho andado para querer desesperadamente me conquistar.Não sou promoter da Lótus nem faço “superinsane guetto no brain mega popstar da super gatas iradas da festa do branco do Sirena”, sou apenas uma escritora que sente a bunda flácida de frente pro laptop e escreve a porra do dia todo. Mas eles não estão nem aí, eles querem comer minhas personagens, minhas putarias, minhas neuroses a fotinha que sai na coluna da VIP, minhas fãs do Orkut, minhas estranhezas, o glamour da licenciatura, sei lá… “Uma loirinha jeitosinha e ainda sabe escrever mais de um parágrafo sem falar ‘tipo assim, irado’? Desse tipo assim ainda não experimentei”.Não deu outra. No mesmo dia, provavelmente após ele ter lido alguma coisa minha (claro que dei todas as pistas), chegou um longo e-mail com mil elogios à minha sensibilidade e um amável convite para irmos jantar no dia seguinte.Topei e corri para o armário: o homem deu uma, duas, três na escada e ainda deu tchauzinho para as câmeras merecia a produção mais sexy do mundo. Achei estranho quando as flores chegaram pela manhã e mais estranho quando ele abriu a porta do carro para mim. Mas tudo bem, daqui a pouco, o macho animalesco ia surgir e me comer em cima do capô, atrás da igreja ou no banheiro do restaurante. Aquilo tudo era figuração para prorrogar o clímax e torná-lo ainda mais feroz.Fez questão de pedir um vinho chique de uma uva sul-africana chique e ainda pediu que acendessem as velinhas da nossa mesa. Segurou nas minhas mãos, brilhou os olhos e falou cheio de ternura: “ontem você me fez chorar”.Não, não, ele só pode ter confundido o verbo, provavelmente quis dizer: me fez gozar, me fez ficar louco, me fez ter que dar uma, duas, três no banho, me fez qualquer coisa mais animadinha… mas chorar?Ele continuou: “sabe, não agüento mais essas conquistas vazias pelo mundo afora, o sexo sem alma, a falta de companhia inteligente para uma vida”.Mas justo na minha vez? Poxa, a professora de ioga tinha gritado tanto na sauna que deu pra ouvir até no quarto andar seus mantras. Depois ele desvirginou a modelete ossuda que vivia pagando de gatinha e até eu queria pegar, depois quebrou o galho da Rose que via o mesmo pinto mole havia mais de doze anos, e fechou com chave de ouro comendo a Silvia, tal qual uma cadela. Justo na minha vez ele queria filminho do Hugh Grant embaixo do edredom? O que eu tinha feito para merecer tanto desprezo?“Olha, eu vi em você o que sempre procurei em uma mulher: profundidade”. Então, amigo, isso mesmo, profundidade, não vai querer conhecer a profundidade agora embaixo da mesa?Ele passou a noite toda olhando nos meus olhos, sem desviar um segundo para meu decote, Contou da separação dos pais, da dificuldade da irmã em engravidar (aproveitando para deixar claro que está louco para ser pai) e quanto amava os cachorrinhos, a natureza e o amor.Quando finalmente chegamos juntos ao elevador do nosso prédio, ele apertou seu andar e o meu, matando de vez qualquer esperança de ser devorada loucamente aquela noite. Se despediu com cara de bobo e ainda mandando mensagem de texto pelo celular quando eu já estava frustradamente deitada na minha cama: “foi uma das melhores noites da minha vida”.Dormi mais uma vez me sentindo usada pelos homens.
domingo, 6 de novembro de 2011
Noite Feliz

CATAPUFT! E eu me perguntava, quase já sem agüentar mais, sem entender tamanha entrega burra, quando isso finalmente teria um fim.Quando minha coluna ia voltar a ser ereta, minha cabeça erguida e meus passos firmes? Quando eu iria superar você? E foi assim, sem avisar, por causa de um segundo sem grandes enredos, que a chavinha, catapuft, fez meia volta e virou para a esquerda. Me devolvendo a mim, me devolvendo à vida. Dissolvendo você no ar, trazendo cores, cheiros e possibilidades de volta. Matando o homem que eu mais amei na vida bem na noite de Natal.Enquanto todos comemoravam o nascimento de Deus, eu comemorava a sua morte. A morte de quem e para quem eu já tinha sido mais fiel, refém, escrava e discípula do que para qualquer outro deus.Era véspera de Natal e você me ligou. Meu coração se encheu de esperança, de pureza,de fé, de alegria. Do outro lado, sua voz na salada e banal me disse, assassinando meu coração e se suicidando na seqüência: essa ligação não é uma recaída natalina, não,é apenas porque eu tava aqui, sem fazer nada, e pensei… quer trepar? Catapuft.Não, eu não quero trepar. Mas quer saber? Eu também não quero mais te amar. O menino da pizza e do interfone virou um homem solitário, infeliz e descartável. Catapuft. Pode parecer loucura, mas tirar você do meu peito foi o meu melhor presente que já ganhei.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Cuida bem de mim
Não acredito que alguém consiga ser plenamente feliz sozinho. A gente se distrai muito até encontrar o amor de verdade. Desculpe, mas sou piegas assim: acredito em amor de verdade. Você pode encontrar muita gente pelo caminho. Muitas enganações, muitas promessas, muitos beijos, muitos corpos e corações. Mas a gente sente quando ele, o amor, chega pra ficar.Você sente pela sensação de conforto que ele oferece. Pela calma. Pela paz. Por ajeitar tudo lá dentro do peito. É que as paixões nosbagunçam. Nos desarrumam. O amor arruma tudo. O amor faz uma faxina emocional. O amor deixa tudo limpo, novo, claro. A paixão dá uma sensação de poder, faz o chão sacudir, seu corpo balançar. O amor traz segurança, tranquilidade. O amor é sereno.Durante muito tempo eu quis sentir aqueles efeitos e reflexos de paixões. Elas arrebentam, arrebatam, atormentam. O amor, não. O amor tem o mesmo efeito de um abraço bem longo e apertado. Ele te deixa com a cabeça nas nuvens e os pés no chão. É que amar é ter os pés no chão. Olhar para a frente junto com o outro.Amor é realidade, dia a dia, dificuldade. Amar é vencer uma batalha todo santo dia. Porque não é fácil conviver com alguém. Não é fácil dizer olha, te entrego meu coração, meu sentimento, minha emoção. Olha, cuida bem de mim. Cuida do que eu sinto. A gente tem que baixar a guarda, engolir o orgulho, se deixar levar. Se perder para se encontrar. O amor é um encontro. De você com você mesmo. Amar é se ver nos olhos do outro. Mesmo que ele esteja com os olhos fechados.Acredito que existem amores saudáveis e amores prejudiciais. Amor saudável é aquele que une, junta, agrega. Amor prejudicial é aquele maluco, possessivo, que separa, que isola. É muito ruim quando seus amigos ou família não gostam da pessoa que você escolheu para viver junto. Amar é querer reunir todo mundo que mora no seu coração. Ainda bem que eu consegui. E consigo todo dia.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Gira - Gira
Eu tinha treze anos, ele uns quinze. Não lembro o nome exatamente, mas me recordo que ele torcia para o Palmeiras e,quando tinha jogo, eu escutava seus berros desafinados.Ele tinha as sobrancelhas grossas e pulava na piscina gelada sem medo de levar bronca da mãe.A roupa dele tinha cheiro de amaciante e por alguma razão aquilo me trazia conforto.Um dia ele olhou bem no fundo dos meus olhos, apertou meu braço e disse que à noite eu teria uma surpresa.Eu esperei por ele a noite toda,de pé,espiando pela janela do meu quarto.Meu quarto ainda tinha bonecas e bichinhos de pelúcia,e todos eles tiveram pena do meu cansaço e da minha ingenuidade.No dia seguinte eu acordei sem hálito de criança e perdi pra sempre o doce da boca.Eu tive minha primeira azia com lactose no café da manhã e vomitei.Foi a última vez que vomitei na vida. Eu tinha dez anos,ele também. nome era Felipe e ele se sentava duas carteiras à frente da minha.Ele jogava bola tão bem que podia faltar à aula para ir aos campeonatos da escola.Um dia ele escreveu "Te amo,quer namorar comigo?" num bilhete e entregou para mim.Eu lembro que li e tive uma tontura tão grande que achei que fosse morrer antes da prova de matemática(e fiquei feliz, porque não tinha estudado).Quando fechei o bilhete,vi que estava escrito "Melissa".Ele havia dado o bilhete apenas para eu entregar para a menina que sentava atrás de mim.Eu senti tanta vergonha,tanta vergonha,tanta vergonha,que pedi à professora para ir ao banheiro.Quando cheguei no banheiro,fiz várias caretas para o espelho.Até hoje não sei por que exatamente.Talvez quisesse ficar tão feia quanto estava me sentindo.A calça da escola me deixava horrível e eu amarrava o moletom na cintura.A Melissa não precisava disso,ela ficava linda naquela calça,era bailarina.Apertei tão forte aquele moletom na minha barriga que as marcas do elástico ficaram por quatro dias desenhadas na minha cintura.Eu tinha 5 anos, ele 6. Ele se chamava Thiago e tinha um irmão chamado Pablo. Ele corria tanto com o gira-gira que eu achava que meu coração fosse pular pela boca. Ele colocava a mão sobre a minha quando eu fazia que ia sair do gira-gira, e apertava a minha mão. Eu sempre fazia que ia sair só para ele colocar a mão sobre a minha.Um dia eu simplesmente o agarrei e dei um beijo de língua nele. A professora chamou minha mãe na escola para contar e minha mãe, puxando de leve a minha maria-chiquinha, perguntou à professora quem era o Thiago."É aquele ali na aula de ginástica." Quando olhamos, ele estava todo sujo e com o nariz escorrendo.Eu ouvi da minha família toda, até poucos anos atrás, que eu gostava de"ranhentos".Um dia ele me trocou pela Dani, uma garotinha de sardas que tinha irmãos e não usava botinhas ortopédicas. Eu lembro até hoje de ter perguntado à minha mãe se sardas eram doença. Torcendo muito para serem.Hoje tenho 25 e eles têm idades, nomes e manias variadas. E por mais que eu olhe para o meu escarpin, ainda vejo aquelas botas grosseiras numa canelinha fina.As Danis com sardas e Melissas bailarinas ainda existem, e elas continuam tendo a família mais descolada do mundo e ficando lindas em calças de moletom.Por mais que meu corpo durma, minha alma continua na janela esperando você aparecer, ingênua e cansada.Eu continuo acordando todos os dias com saudade do doce e com medo do azedo. Eu continuo fazendo caretas e sou a única que não vejo muita graça nelas.O gira-gira não pára nunca, meu coração continua acelerado e continuo fazendo que vou pular fora para você me socorrer. Para você segurar bem firme na minha mão e me fazer ter coragem de arriscar o vento na cara e o mundo muito rápido. Coragem para o mundo que dá tantas voltas.Eu ainda espero chegar a minha vez de receber o bilhete "Te amo. Quer namorar comigo?" apesar do moletom na cintura e das marcas causadas por ele e por todo o resto.