Era uma noite estranha e ela ficou se perguntando por que será que as coisas todas dela que iam embora, acabavam voltando hora ou outra. Não sabia se era insistência de quem foi e se arrependeu no meio do caminho ou se eram as portas da casa, sempre abertas, destrancadas dando vez pra uma mágoa do passado voltar, sem nem ter que bater na porta. Achava estranho as viradas e invertidas que ela dava nas coisas, nos sentimentos, nas pessoas. Achava um saco ser tão volúvel quando tudo o que ela mais queria era menos vulnerabilidade. Achava injusto demais a sensação ruim de nunca ter achado aquilo que ela tanto procurava.E eu fiquei ali, bem paradinha no meu canto, olhando a garota bonita se lamentar por tantas coisas que ela, por mais que quisesse muito, não tinha. Fiquei pensando nas horas que eu mesma já passei fazendo isso, num passado não muito remoto. As lágrimas que eu sequei sozinha, os abraços que viraram buraco, as risadas rompidas num silêncio que eu demorei pra entender que poderia sim ser benéfico pra mim de algum jeito. Sempre tem algum jeito.Talvez ser triste atraia muito mais olhares – como foi atraído o meu – do que simplesmente optar pelo não ligar, pelo nada fazer, pelo mandar se foder, literalmente. Eu nunca fui uma pessoa do, literalmente, foda-se. Sempre muito preocupada com todas as coisas que viriam de todas as coisas, sempre querendo entender os porquês de todos os tudos. Sempre no plural, nunca compacta.Mas os anos passaram por mim nada sóbrios e não foram macios os dias no meu rosto. Eu não tive tempo de cantar alguma música do Caetano enquanto acordava embaixo dos caracóis do cabelo de ninguém. Tudo pra mim sempre foi muito mais “olhos nos olhos” e “o que me importa”. Tão Chico e Marisa, tão doído que dava dó. Uma coisa.Só que aí eu acabei mudando. E foi mudança aos poucos, porque até hoje me dou conta de coisas minhas que já não estão mais lá e, quem roubou, eu jamais vou saber. O sorriso mudou e a vontade de sorrir pra qualquer pessoa também, graças a Deus. Foi por sorrir tanto de graça que eu paguei tão caro por todas as coisas que me aconteceram.Às vezes me pego olhando ao meu redor e vendo tanta menina parecida comigo. Tanto sentimento gritando de bocas caladas e escorrendo de peles secas. Tanta coisa acontece com a gente. Tanta gente passa pela gente, mas tão pouca gente realmente fica. E eu sei que, talvez, eu tivesse que ficar triste. Talvez eu tivesse que continuar secando lágrimas, abraçando o vento e rindo no vácuo, mas o fato é que eu não consigo. Eu não consigo mais ser triste só para mostrar que um dia eu fui – ou achei que tivesse sido – feliz.Aprendi com os meus próprios erros que sofrer não torna mais poético, chorar não deixa mais aliviado e implorar não traz ninguém de volta. Aprendi também que por mais que você queria muito alguém, ninguém vale tanto a pena a ponto de você deixar de se querer. Eu que gritei para tantas pessoas ficarem, hoje só quero mesmo é que elas sumam de uma vez por todas. E em silêncio, que é pra ninguém ter porque se lamentar.quarta-feira, 13 de julho de 2011
Meu minuto de silencio
Era uma noite estranha e ela ficou se perguntando por que será que as coisas todas dela que iam embora, acabavam voltando hora ou outra. Não sabia se era insistência de quem foi e se arrependeu no meio do caminho ou se eram as portas da casa, sempre abertas, destrancadas dando vez pra uma mágoa do passado voltar, sem nem ter que bater na porta. Achava estranho as viradas e invertidas que ela dava nas coisas, nos sentimentos, nas pessoas. Achava um saco ser tão volúvel quando tudo o que ela mais queria era menos vulnerabilidade. Achava injusto demais a sensação ruim de nunca ter achado aquilo que ela tanto procurava.E eu fiquei ali, bem paradinha no meu canto, olhando a garota bonita se lamentar por tantas coisas que ela, por mais que quisesse muito, não tinha. Fiquei pensando nas horas que eu mesma já passei fazendo isso, num passado não muito remoto. As lágrimas que eu sequei sozinha, os abraços que viraram buraco, as risadas rompidas num silêncio que eu demorei pra entender que poderia sim ser benéfico pra mim de algum jeito. Sempre tem algum jeito.Talvez ser triste atraia muito mais olhares – como foi atraído o meu – do que simplesmente optar pelo não ligar, pelo nada fazer, pelo mandar se foder, literalmente. Eu nunca fui uma pessoa do, literalmente, foda-se. Sempre muito preocupada com todas as coisas que viriam de todas as coisas, sempre querendo entender os porquês de todos os tudos. Sempre no plural, nunca compacta.Mas os anos passaram por mim nada sóbrios e não foram macios os dias no meu rosto. Eu não tive tempo de cantar alguma música do Caetano enquanto acordava embaixo dos caracóis do cabelo de ninguém. Tudo pra mim sempre foi muito mais “olhos nos olhos” e “o que me importa”. Tão Chico e Marisa, tão doído que dava dó. Uma coisa.Só que aí eu acabei mudando. E foi mudança aos poucos, porque até hoje me dou conta de coisas minhas que já não estão mais lá e, quem roubou, eu jamais vou saber. O sorriso mudou e a vontade de sorrir pra qualquer pessoa também, graças a Deus. Foi por sorrir tanto de graça que eu paguei tão caro por todas as coisas que me aconteceram.Às vezes me pego olhando ao meu redor e vendo tanta menina parecida comigo. Tanto sentimento gritando de bocas caladas e escorrendo de peles secas. Tanta coisa acontece com a gente. Tanta gente passa pela gente, mas tão pouca gente realmente fica. E eu sei que, talvez, eu tivesse que ficar triste. Talvez eu tivesse que continuar secando lágrimas, abraçando o vento e rindo no vácuo, mas o fato é que eu não consigo. Eu não consigo mais ser triste só para mostrar que um dia eu fui – ou achei que tivesse sido – feliz.Aprendi com os meus próprios erros que sofrer não torna mais poético, chorar não deixa mais aliviado e implorar não traz ninguém de volta. Aprendi também que por mais que você queria muito alguém, ninguém vale tanto a pena a ponto de você deixar de se querer. Eu que gritei para tantas pessoas ficarem, hoje só quero mesmo é que elas sumam de uma vez por todas. E em silêncio, que é pra ninguém ter porque se lamentar.O menino dos meus olhos
Tantos rapazes passaram pela vida daquela moça que ela acabava indo e vindo, começando e terminando, rindo e chorando sempre, tudo junto e ao mesmo tempo. Acabava não aproveitando muito a emoçãozinha do durante porque sofria pensando no depois; mas aí na hora de chorar pelo depois ela já tinha chorado muito e partia pra mais algum durante assim, sem esquentar muito a cabeça. Foi sempre assim. Desde que ela consegue se lembrar, ou contar, foi assim. Eles aqui ou ali, tanto fazia. Era sempre o mesmo desfecho sem graça para a mesma história repetida. E ela tinha uns 16 anos quando ele apareceu na vida dela. Na época ela mal conseguia diferenciar aquele rapaz de todos os outros e, pra falar bem a verdade, ela só percebeu de quem se tratava dia desses, quando começou a fechar seus olhos antes de dormir e percebeu que a imagem dentro do escuro debaixo das pálpebras dela, era dele. Percebeu que há muito tempo era ele. Percebeu que todos os outros rapazes nunca seriam páreos pra ele porque ele não estava nas coisas que ela via somente, ele estava também - e principalmente - nos olhos dela quando estes estavam fechados. Ninguém competia com ele porque ele estava nela, dentro dela. Só que a vida nunca foi uma grande amiga dessa moça, nesse sentido. Todas as vezes que ela pensava em abrir os olhos e libertar o rapaz especial de dentro dela, a vida insistia em a fazer continuar sonhando. Às vezes era bom sonhar e ela mesma não queria abrir os olhos, mas havia outras vezes que o sonho ia virando pesadelo, ele corria perigo, ela queria acordar, queria tirar ele dali... mas não conseguia. De todos os homens do mundo, ele era o que ela mais admirava. Todas as coisas que ele fazia viravam estórias encantadas na cabeça dela, ele era o príncipe que escalava o castelo, o cavaleiro que ganhava a batalha, a coisa mais brega e mais bonita que ela conseguia pensar sempre, era ele. E ela descobriu que não é vergonha ser brega para ser bonito. Ela estava cagando pra quem a achasse brega. O tempo foi passando e a distância entre ele e a realidade foi diminuindo. Às vezes ela abria os olhos assustada depois do sonho e era como se ele estivesse realmente lá, era como se ela pudesse mesmo sentir o cheiro, a presença. Tantas vezes ela foi dormir contorcida, apertada a si mesma, desejando fundo que no lugar dos travesseiros e das vontades, fosse ele. Ela só queria que fosse ele. Mas não foi. Não dessa vez. Não foi de novo. E ela conta os dias, as horas e os problemas que faltam ser resolvidos pra eles conseguirem finalmente ter o final feliz do conto de fadas. Ela o guardou há muito tempo num lugar muito seguro, que nenhum dos seus namorados de papel da vida real vai conseguir chegar algum dia. Porque eles, os outros, estavam dos olhos pra fora: ela os enxergava, se divertia, tocava, sorria, mas em hipótese alguma os levava para dentro dos olhos dela. De tanto implorar para acordar, então, foi exatamente isso que aconteceu. Só que, por hora, o príncipe cheio de defeitos encantadores ficou lá dentro, lutando pra sair, ainda. E o ritual sagrado segue de noite em noite,numa espera angustiante, mas que um dia vai passar, há de passar. Às vezes uma pessoa ou outra diz a ela que não se pode viver assim, fechando os olhos pras coisas à sua volta. Mas a moça, agora tão esperançosa, não só fecha os olhos como também, tapa os ouvidos. Tantas pessoas passaram por ela, tanta coisa foi dita, tantas promessas que jamais foram cumpridas e ela fica pensando sozinha que, se ela já perdeu tanto tempo com sentimentos de papel, vale a pena - e muito - esperar por alguém que há tanto tempo faz parte da parte mais íntima da sua vida: o seu sonho de ser feliz.
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Certo?
Ouvi dizer hoje à tarde que quando você é completamente dono da sua personalidade, ninguém jamais será capaz de usar ela contra você. Fiquei pensando que fazia sentido e que são justamente as pessoas que têm a capacidade de moldar mais e mais perfeitamente quem elas são, que conseguem no final, viver a vida sem passar pelo problema mais difícil – muito mais difícil do que ser julgado ou atacado por alguém – quem tem o dom, o tom e o movimento certeiro de se descobrir, se aceitar, se entender, se respeitar e se amar acima de tudo e de todas as coisas, jamais terá que ser questionado por si mesmo. Porque quando eu sou quem eu sou, e eu sei do que eu sou feito, ninguém tem o poder de me domar, me dominar; a minha guia vai ser a que eu quiser, ao vento que eu escolher.Certo? Certo.Mas aí continuei ouvindo. Ouvi outras conversas, percebi quantas verdades cabem dentro de uma mesma história. Se sou eu quem escuta, sou eu quem crio em cima do que já foi criado. E se pontos de vista existem, a minha personalidade não depende da de ninguém, mas cada pessoa vai continuar pensando o que quiser de mim. E pouco importa no fundo porque quem continua vivendo na minha pele sou eu, gostem os outros ou não.Certo? Certo.Mais adiante na conversa, ouvi que fulano não entendia como cicrano tinha o poder de odiar e amar sua mulher, tudo junto, de uma vez, tão sem fim na decisão se ela era ou não a pessoa que ele deveria permanecer junto, pra sempre. Fiquei ali pensando… “pra sempre é tanto tempo”. Nosso medo tão inseguro de não conseguirmos mais caminhar em dois pés porque num determinado momento nos acostumamos a andar em pares, dormir em pares, comer em pares. Nossos pés continuam sendo só dois, mas a gente se acostuma a andar feito cachorro, de quatro, seguindo o ritmo do dono, muitas vezes sufocados pela coleira sem saber se a sensação é de segurança ou de pavor.Mas viver junto é o certo, certo? Certo.Porque amor é tudo o que todo mundo procura. Amor tem a função impossível de preencher os buracos que já nasceram vazios, amor tem a obrigação de curar traumas de infância, de ser mais importante do que as realizações pessoais, do que o nosso egoísmo que poderia nos alavancar pra frente, amor tem o desejo quase burro, quase louco de tapar com outras as nossas saídas respiratórias, porque amor enche tudo, amor cobre tudo, amor não te deixa respirar, nem andar em dois pés, nem ver a vida com os dois olhos que nasceram no seu rosto, num único par.E eu vejo naquela minha amiga casada há 15 anos e eu vejo na outra que procura alguém há outros 15. As pessoas vivem a vida toda nessa busca que não tem fim porque não tem começo, parece que nasce dentro da gente. Eu vejo em mim, vejo no meu namorado, vejo no namorado das outras e vejo nas outras que possivelmente gostariam de ter ou ser o meu namorado.A busca do outro, a busca do perfeito, a busca da metade, a busca do recíproco simétrico não é mais do que a busca do si, do que falta em você para que você seja completo. Mas ninguém nunca é completo já que somos movidos a ar e de tanto tentar encaixar amor nos buracos, acabamos parados.E não sou eu que vou levantar a bandeira contra o amor. Justo eu que só sei falar disso, que vivo pra isso e disso, justo eu que atravessei o mundo mais do que uma vez, que aceitei não viver a minha vida do jeito que eu achava ser o melhor pra mim, justo eu que personifico aquilo que projeto simplesmente pra acariciar meu desejo de ser o amor, em pessoa.Não vou maltratar o amor, porque o amor move tudo, o amor resolve tudo, o amor luta as lutas que eu não tenho coragem de lutar, o amor faz retratos tão bonitos e escreve poesias incríveis, o amor me dá material há anos para falar só dele, em tantas frases diferentes, sempre ele, como um mantra, e mesmo só me repetindo há anos, o amor faz parecer tudo novo, porque todo mundo continua na busca, no desespero, na corrida, na largada, no final do túnel, na outra metade da laranja, segurando a tampa de uma panela, do outro lado do telefone, o amor continua, o amor corre, corre, corre, o amor nunca chega, mas ele também nunca vai embora porque ele é onipresente e todo mundo deseja, almeja, reza tanto o amor o tempo todo. O amor é o Deus sem igreja, o amor tem diversos demônios em si, ciúme, traição, amor doença, amor dor.Ruim ou bom, longo ou curto, todo mundo precisa ou pensa que precisa de amor. E como o instinto é mais rápido que a razão, eu vou continuar entupindo minhas vias respiratórias de tudo o que tenha aquele cheiro, aquele gosto, aquela textura dele, do meu amor.Palavras são só palavras e a gente sabe que o amor existe, certo? Certo.Mas não tem cura.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Lobotomia
Você olhou pra mim e fez cara de quem já me conhecia. De cima à baixo, como quem faz inspeção num imóvel onde morou quando era criança; móveis diferentes, mas o mesmo cheiro de lugar conhecido. Fazia tantos anos que eu não olhava pra você também, mas a verdade é que eu não senti saudade de você nem por um segundo nos últimos quinhentos anos. Nada. Saí dali com aquela sensação estranha de ter mergulhado a ponta do dedo num copo de passado e enfiado na boca rápido, descobrindo numa lambida só que algumas coisas quando amargam não voltam a ser doce depois de um período de abstinência. Passei esbarrando por algumas pessoas, fui quase atropelada por alguns carros, as ruas ficaram um pouco tortas de uma hora pra outra e meu equilíbrio que andava tão em dia comigo resolveu falhar. Esse é o problema de gostar das pessoas. Pessoas fodem sua vida, partem seu coração, comem outras pessoas quando deviam estar só comendo você. Pessoas têm passados de histórias de amor que não foram com você e, no fundo, a gente sempre sabe que a gente também tem o nosso e faz parte do passadocomprometedor de alguém. E pior, até onde vale à pena lutar com garras afiadas contra o passado de quem a gente ama, ou esconder com todos os recursos de privacidade o que já aconteceu na nossa própria vida? O problema do meu ciúme é que ele é tão grande que acaba ficando sem foco. Meu ciúme não tem nome porque eu consigo dar variados nomes à ele todos os dias, em todas as suas ações eu consigo achar alguém que está ali, bem escondidinho no canto do seu cérebro que administra todas as lembranças que foram feitas antes de eu chegar. Meu ciúme é tão imbecil, que eu às vezes penso que se eu abandonar você eu posso finalmente me tornar uma lembrança grossa que também caber (e ainda roubar o lugar de algumas pessoas) nessa parcela de massa incefálica que eu ainda não posso entrar. Se eu fosse passado e não presente, seria eu que ia importunar, não quem estaria sendo importunada. Daí eu fico inspecionando meu passado de perto todos os dias atrás da moita, que é pra eu me lembrar que eu também tenho um e que, se você resolvesse futucar aqui e ali o tempo todo (como faço eu), você também sentiria ciúme de mim. Mas aí me vem sempre aquela outra pergunta: será que você não sente? Será que enquanto eu durmo você não pega o meu celular e lê todas as minhas mensagens na vontade de achar alguma coisa que explique o porquê eu vigio tão de perto cada um dos seus suspiros mais longos? Ou será que só sou eu mesmo que sou a louca deste relacionamento e não entendo que depois de tanto tempo não resolve mais ter ciúme, ou se acredita no que se tem ou se vai embora e pronto? Vocês me olharam com caras conhecidas porque, afinal, vocês supunham mesmo me conhecer muito bem. Um beijinho aqui, há anos atrás, algum segredo que naquela época era muito importante, mas que hoje eu nem me lembro mais. Talvez você conheça o nome da minha música preferida e talvez saiba quem é minha melhor amiga e qual é o time do meu pai. Talvez eu tenha um dia dito estar apaixonada por você, talvez eu tenha chorado algumas noites – ou até muitas – porque você me traiu, ou porque me deixou, ou porque não quis me namorar. E você, amor, você me olha fundo porque conhece o meu bem e o meu mal. Enquanto os outros guardam de mim memórias pequenas, você me reconhece nos meus gestos mais comuns e me enfrenta no meio dos meus devaneios, no meio dos meus ataques de morte, das minhas tentativas de guerra contra todos os demônios que habitam minha cabeça porque ela é sempre cheia de tantas coisas, funcionando muito mais rapido e atribuladamente do que a das pessoas normais. Eu tenho tanto medo de um dia uma mulher normal, com cabelo liso, roupas iguais às de todo mundo e senso de humor medíocre te leve de mim. Porque essas pessoas que são só pessoas – realmente iguais à seus iguais – são normalmente mais fáceis de se conviver. Porque eu sei que você acha a minha loucura bonita e até meio poética, mas eu sei também que você já achou tudo isso muito mais lírico do que acha hoje e que, um dia, pode de verdade cansar de tanto surto. Eu disse que não senti nada por ele, mas é uma meia verdade, já que não é exatamente uma mentira. Eu senti nada, mas tem dias que eu busco em todos aquilo que você não me dá mais porque já me tem do seu lado há muito tempo. E eles me dão aos montes, mas na hora H eu recuso porque nada do que eles possam me dar vai ser você. E a verdade mais clara de todas as meias que eu tenho dito ao longo desse texto todo é que essas minhas ações repetidas durante tantos anos, nada mais são do que uma bandeira estendida por detrás da trincheira, pedindo trégua e tentando chamar sua atenção. Na nossa guerra diária de passados, de outros amores, de decisões, de foco, de fica, de fode, de fato, não é a vontade de ganhar de você que me move, mas sim o medo de te perder. A qualquer hora sem aviso, para qualquer uma dessas coisas. Meu ciúme é tanto que eu acabo olhando muito para o meu passado. E eu sei que sou louca – você me lembra todos os dias e eu também tenho consciência – , mas se eu encontrasse o tão falado gênio da lâmpada hoje, o pedido seria simples e sim, insano: um mundo sem passado, pra mim e pra você.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Sábado a noite sem programa
O que será que dói mais, perder um grande amigo ou um grande amor? Porque a gente aprende que, desde que nasce, deve procurar pelo príncipe encantado e, muitas vezes é fato, esse cara nunca vem. E amizades também têm assim, um pouco de amor no contexto. Virar amigo de alguém também tem muito a ver com se apaixonar, com acreditar no que aquela pessoa representa, em quem ela é. Conseguir um amigo fiél, que vai estar do seu lado quando o seu possível príncipe encantado fodeu sua vida ou quando você tem uma crise e não sabe mais – pela milésima vez – o que quer fazer da sua vida, muitas vezes é bem mais complicado do que encontrar amor.A gente aprende com o tempo que, assim como as fases da nossa vida, os amigos passam às vezes. A sensaçao que dá, inclusive, é que algumas pessoas ficaram presas naquela parcela de passado que nosso cérebro é capaz de lembrar. A sua melhor amiga de primário; uma vez, nas férias, vocês resolveram brincar de cabalereiro e você acabou cortando metade da franja dela na metade da altura da texta – que já não era das menores. Ao invés de chorar, e percebendo que a mãe dela ia querer matar a sua e, possivelmente, vocês não poderiam ser mais amigas, ela sugeriu que você cortasse a sua também. E você cortou. Duas franjas tortas, problema e cumplicidade resolvidos.Ou a sua melhor amiga do ginásio. Ela estava lá quando você menstruou, quando você se apaixonou pela primeira vez e, pela primeira vez, teve seu coração partido. Ela também estava lá quando você resolveu fugir de casa porque seu pai não te deixou sair à noite porque você ainda não tinha dezoito; mal sabia o seu pai que pra você, quinze era definitivamente o novo dezoito e, era só ele piscar o olho no sofá, que a sua identidade falsa ia passear com sua melhor amiga na Vila Olímpia.Com sorte, sua melhor amiga do ginásio ainda era sua melhor amiga no colegial e, meio que inevitavelmente com o tanto de hormônios que correm nessa fase, vocês podem ter tido uma briga sem volta ou porque ela achou que você gostava do namorado dela, ou porque ela achou que você era muito mais magra que ela, ou porque, simplesmente, todos os motivos anteriores aconteceram e ela achou que a vida dela, agora, precisava de um rumo que não incluía você. E aí, alguns anos depois ela se arrependeu e resolveu pedir desculpas. Mas aí, veja, aí já era tarde demais porque amizades – assim como amores – são relações interpessoais que precisam não só de carinho, mas também de esforço pra que haja compatibilidade. Em amor ou amizade, só o sentimento, infelizmente, não é suficiente pra manter tudo de pé. Você tem de ceder e a pessoa tem de ceder também. Amizade, amor e qualquer coisa que liga a alma de duas pessoas exige, no mínimo, convivência e paciência.Aí você vai pra faculdade e encontra seus novos amigos de infância, sem discriminação de sexo – inclusive literalmente. Você se sente mais adulta porque achou que descobriu finalmente o que quer fazer da sua vida e, no meio de muita gente nova, a empolgação te cega na hora de enxergar que, na vida, ninguém nunca tem certeza do que vai acabar fazendo com ela. Você faz mil amigos homens; e os que são bonitos, fazem você. E faz duas – com sorte -, três amigas que você vai carregar pra sempre. Elas passam pela fase da probreza universitária com você; aquela fase que você vai à pé ou de ônibus pra festa depois de ter estudado de manhã e passado a tarde no estágio não remunerado. O incrível dessa época é que, mesmo na pobreza, vocês pareciam conhecer todo mundo que precisavam conhecer em São Paulo, pra entrar em qualquer lugar sem precisar da moeda de troca usada pelos outros.Aí a faculdade acaba e você – mais uma vez na dúvida do que fazer com a própria vida e agora, também, com a carreira que escolheu pra você – resolve mudar de país, largar mão de tanta festa e encontrar o amor. E assim você se enxerga depois de alguns meses, cheia de amor e sem amigos. Sem amigas. Não está completo.Alguns anos depois, você e sua melhor amiga da faculdade têm o primeiro estranhamento. Você voltou mas as vidas de vocês andaram separadas. Amizade, como amor, precisa de dia a dia, precisa de “Como foi o seu dia?”, precisa de frescurinhas e cuidados pra não estremecer.Meses de insistência depois, quando você quase conseguiu enfiar a amizade de volta no eixo, quando fez novas amigas de infância pra quem pôde ligar na hora que algum dos seus amigos deu em cima de você e te deixou surtada, ou na hora que sua chefe gritou com você no meio da redação e você correu pro banheiro, sentou na privada e ligou pra ela ao invés do seu namorado porque ela, diferente dele, não ia te mandar engolir o choro e ia te entender. Bem nesse momento então, a vida muda de novo, você muda de país de novo e, mais uma vez, suas amigas de infância de verdade, as de infância da faculdade e as de infância do trabalho ficam pra trás enquando você vai.Aí você chega aqui, de novo com o amor que sempre precisa de manutenção, mas tendo a difícil tarefa de manter à distância as outras relações da sua vida.Alguns amores começam de amizades, e alguns amores, terminam em amizade; ou pelo menos é isso que ouço dizer. Mas eu não acredito muito nesse estatuto que estipula regras de boas vizinhanças entre ex-namorados e, tampouco, naquele que estabelece que uma amizade entre homem e mulher – heterossexuais, obviamente – pode ser complemente imune do fator que todo mundo que já teve um grande amigo do outro sexo um belo dia encontra pela frente, a curiosidade.O fato, e a desculpa pra esse texto sem propósito e tão bagunçado, é que só amizade e só amor, sozinhos, não conseguem suprir tudo o que a gente precisa. Você pode reclamar da melhor amiga pro namorado e pode – e vai – xingar o namorado de tudo o que precisar pra melhor amiga. Mas não, o namorado não pode ousar falar da melhor amiga e a melhor amiga nunca pode entrar muito no calor do momento e acabar xingando seu namorado.No final, a nossa vida não muda de curso e nem pára de andar em frente pelos desejos de mais ninguém, além dos nossos próprios. E se a gente fez a burrada de ter uma cabeça avoada e um coração cheio de sonhos e vontades de conhecer o mundo, viver um grande amor e fazer grandes loucuras em nome disso, a gente têm que, também, aceitar que muitas vezes é possível perder quem se deixou pra trás.Feliz das pessoas que nasceram com as cabeças nos lugares e resolveram amar só quem apareceu pela frente, nunca quem estava fora do alcance da vista.Quanto à mim, meu coração continua por toda parte e minha cabeça não tem nem meios de ser mais bagunçada. Vai ver é por isso que jamais vou saber qual é a sensação de estar completa, sem sentir saudade de absolutamente ninguém.sábado, 20 de novembro de 2010
O que sobrou de você pra mim
Tem dias que você para e olha pra si mesmo e a sensação que você tem é de estar perdido na insanidade que você enxerga, mas não controla.Quando eu te conheci você fazia parte das horas mais preciosas do meu dia, eu largava quem quer que fosse, eu esquecia de compromissos, eu perdia a fome na hora de jantar, eu tomava um banho rápido, eu me vestia com pressa, desligava meu telefone, ignorava a campainha, ficava offline no messenger, eu saía de toda área de alcance porque a única coisa que me importava quando eu conheci você era que você pudesse, então, me alcançar.
O mundo dá tantas voltas engraçadas e, em muitas dessas voltas, a gente não dá risada de quase nada. Eu fico encontrando defeitos no seu passado como meio de estragar nosso futuro, mas eu juro que o ímpeto vem de dentro de mim, mas não é meu. Parece que existe alguma coisa mais forte do que o meu discernimento que me faz procurar escatologias onde não se vê nada de errado, só pra eu acreditar que ainda sei viver sem você em caso eu precise.
Porque por mais que aquele remoto passado parecesse um incrível segredo nosso, todo mundo sabia que eu estava apaixonada. Porque na verdade, a paixão não é uma coisa quieta, ela não consegue falar baixo, gostar devagar, querer de pouquinho em pouquinho. E a minha paixão não era nada diferente das outras paixões, aquelas que você já teve e eu também já conheci mesmo que sem vasculhar muito. A minha paixão por você era cega, surda e louca porque era a primeira – pelo menos daquele jeito maluco - e me arrastava tanto que me arrastou pro outro lado do mundo que eu conhecia e me levou pra um mundo onde a única referencia de tudo que pudesse pedir uma referência era você.
E quando você reclama que nada do que você faz está bom pra mim, não é porque você não seja bom e nós dois sabemos disso. O problema de ser bom é que depois de um tempo precisamos ser ótimos, e depois de ser ótimos viramos incrivelmente inexplicáveis e daí, melhorando sempre mais, uma hora a gente acaba mesmo virando o mundo todo de alguém. Tudo mesmo, absolutamente sem frestas e nem espaço pra mais nada. Quando alguém é tudo o que um outro alguém enxerga, esse outro alguém, então, está a um passo de ficar cego. Ser tudo sufoca, porque ser tudo impede desejos individuais, impede criatividade, impede felicidade por besteirinhas do dia a dia porque não são em todas as horas do dia que o você está lá, junto com a pessoa que te tem como tudo.
No final das contas, quando se tem um tudo, acaba-se ficando meio que sem nada.
Naquela época que o nosso sonho virou realidade, eu, na minha paixão quase que histérica, corri pra você ignorando tudo o que estava mesmo em volta da gente, aceleradíssima na vontade de viver rápido como se eu não pudesse perder nenhum segundo daquilo, era medo de acordar, sabe? E aí eu ignorei o fato de eu ter um passado e de você ter um passado porque eu tinha sede demais do nosso presente que demorou tanto pra acontecer.
Eu esqueci que sonhos não duram pra sempre porque quando um se realiza, a gente já deu conta de sonhar mais três depois do último. Eu esqueci que a gente ia fazer planos e que eu ia ter ciúme até mesmo da idéia de você já ter tido nem que seja um projeto de plano com mais alguém. Planejou de ir até a lanchonete do tio Zézin num sábado em que os seus amigos te deram bolo e não tinha nada de mais interessante pra fazer? Ta aí, não importa, já me deixa louca de ciúme. Só a idéia. Eu odeio as terceiras pessoas e odeio ainda mais quando essas terceiras pessoas existem só na cabeça de quem vê porque, caso elas fossem reais, eu teria desculpa pra fazer o que eu faço, pra ser irracional, pra não ter limites e nem compaixão. Dá vontade de bater em todo mundo, de sair na rua gritando, de chorar minhas dores em voz alta pra fazer eco e pra ver se no vexame eu enxergo o quanto estou ridícula de não acreditar que o seu amor é genuíno e que o passado que eu tanto teimo em trazer à tona já nem passa perto de perturbar você.
Eu fiz tanta besteira na minha vida, e o meu medo de te desapontar é tão grande que eu preciso procurar besteiras na sua vida, pra me desapontar com você e estar mais preparada caso você decida seguir por aí, sem mim.
Eu te amo, sabe? Daquele meu jeito que você reclama, mas eu sei que, no fundo, gosta. Só que o meu amor não é só ternura, muito embora eu tente tão forte. Eu sou uma pessoa difícil, daquelas que sente muita raiva e que não leva a vida assim, tão leve. Porque mesmo que rasgadas, aquelas fotos ainda estão se remontando o tempo todo em algum outro lugar que eu não vejo, mas que meu coração sente. E tem aqueles cheiros que a gente sabe de olhos fechados e me mata a idéia de eu não ter feito parte das suas recordações que te dão aquela nostalgia boa e vem misturada com a vontade de poder voltar no tempo e comer doce deitado no sofá da casa da sua avó.
O que acontece quando a gente ama mais alguém além da gente mesmo, é que por mais seguro se tenha sido na vida, aparece aquela sensação de ter perdido tanta coisa, tanto detalhe e, no fundo, dá um puta medo de não conseguir superar, entender, acompanhar.
Quando eu te conheci você fazia parte das horas mais preciosas do meu dia e eu largava qualquer coisa só pra poder falar com você. Hoje, você ainda faz parte das horas mais preciosas do meu dia, muito embora eu tenha plena consciência que eu desperdiço a maior parte delas desacreditando da beleza, da maravilha e do milagre que é, mesmo depois de tantas tempestades fortíssimas, a verdade absoluta do nosso amor.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Quem é ela?
As pessoas falam de vida, de problemas, de amores com a propriedade que só cabe àqueles que são os únicos que sabem de alguma coisa. Desde que eu tenho pouco mais de treze anos, entra ano e sai ano e eu visto a carapuça dessa pessoa que conta com tantos detalhes as batalhas tão duras da sua própria vida que faz, até, com que as outras pessoas acreditem nela. O sofredor, na realidade, é um mentiroso que precisa desesperadamente de atenção. Resolvi ser publicitária porque achei que seria bacana também mentir por profissão então, e passei os quatro anos de faculdade mentindo que a parte da profissão que mais me incomodava era mentir para os outros. É isso, sendo bem direta, que quero contar pra você. O meu amor por você é a coisa mais verdadeira que já aconteceu na minha vida e por isso mesmo eu passo dia após dia me policiando pra não cair em contradição com aquela mulher por quem você se apaixonou, já que ela era uma mentirosa, mas você não faz a menor idéia. Ou faz? Já não sei muito bem em que degrau dessa escadaria pra verdade você está e isso me deixa mais acordada ainda, olhando ao meu redor o tempo todo, esperando o momento em que você vai olhar pra minha cara e me contar que não me conhece.
Foram anos, muitos anos, moldando a minha personalidade pra ser exatamente do jeito que eu achava que uma mulher incrível devia ser. E se por todo esse tempo eu não deixei ninguém se aproximar demais de mim, é porque eu sempre soube que a pessoa que deitava na minha cama à noite era completamente diferente daquela outra que acordava de manhã. Eu não estava pronta, eu não era pronta, a minha prontidão, a minha articulação e o meu desprendimento de tudo e todos não passavam do meu escudo pra não voltar a ser a menina magrela, de óculos e cabelo armado da quinta série, aquela que todo mundo queria ser amigo porque ela era engraçada e inteligente, mas ninguém podia porque, aos 11 anos, ela ainda não tinha nem seios e nem malícia.
Foi por querer vingar a minha adolescente que sofreu tanto bulling que eu criei a personagem que me levou de lá pra cá, a tantos lugares, por vários anos. Só que essa mulher, a vingativa, passou por lugares que eu não quero que você saiba, porque você é o meu respiro de ser aquilo que eu não sou, só para ser alguém. Você – desde o primeiro dia – olhou pra mim e enxergou quem eu era.
E quando eu rio e falo que você não sabe da missa a metade, que você acha que sabe de tudo, mas que perderia as contas se tentasse contar meus erros, que a minha malícia e maldade vieram em doses de pinguço quando resolveram aparecer depois de tanto tempo sendo apontadas como inexistentes por aquelas crianças malvadas, aquelas meninas peitudas que hoje são todas jovens mulheres de 25 anos com os peitos caídos, eu não sei exatamente se quero que você acredite no que eu estou falando ou se quero que você continue me abraçando segurando o riso pra depois beijar minha testa e falar “Ai, amor, como você é mentirosinha.”. A minha vontade às vezes é falar que sim, que sou mesmo, que eu não tive outra escolha porque esse mundo não entrega escolhas de bandeja para as pessoas que acreditam que ser só bom serve. Mas o seu “mentirosinha” – no diminutivo como você fala todas as palavras quando quer conferir a elas caráter feminino ou de carinho – não carrega nele o fardo que eu quero compartilhar com você.
Tem dias que eu sonho com coisas que você não sabe, com coisas que nem eu sei se realmente foram ou se eu criei. Aí eu acordo e quero ouvir o “mentirosinha” pra eu ainda acreditar que, agora, eu posso de novo ser a menina que, ao invés de ter ficado grávida na sexta série, escrevia diários com histórias que não eram dela, na esperança que algum dia eles fossem publicados e chamados de “romances”.
Ontem, vendo o caso de uma mulher que viveu a vida toda carregando um tumor no rosto, eu ouvi ela dizer que hoje em dia ela já não se importava mais, que ela conseguia ser feliz sendo exatamente quem ela era. Não, a minha adolescente pouco entendida não é o meu tumor, ela é minha cura. O tumor são as pessoas mesquinhas que passam pela vida da gente, que com aquela mania eterna de projetar nos outros todos os medos que eles têm para si próprios acabam mudando a nossa vida (mesmo que por um determinado período de tempo, nada é eterno, afinal.) pra pior.
Mas eu agradeço. Sem eles eu não seria sarcástica, eu não saberia ler tão bem as pessoas e, com certeza, hoje em dia eu continuaria sendo machucada diariamente, como uma tonta, sem saber me defender. Minhas mentiras foram meu escudo, minha defesa, minha casa no meio da bagunça e sim, eu fiquei meio bagunçada com elas e não são os meus 24 anos, mas sim essa angústia de descobrir de novo quem sou eu de verdade que anda deixando minha vida tão maluca.
As pessoas falam de vida, de problemas, de amores com a propriedade que só cabe àqueles que são os únicos que sabem de alguma coisa. Mas problemas todo mundo têm, todo mundo sempre vai ter. Hoje eu aprendi que ser quem eu sou – seja lá quem for – não é um problema e, muito menos uma solução pra nada na minha vida. E, além de tudo isso, eu entendi, olhando pra dentro, pra fora, pros lados e pra você que eu posso ser quem eu quiser porque quando você é uma pessoa que pensa, que ama e que odeia, mudar é preciso, é permitido e, no balanço final da vida, a mudança não caracteriza nenhuma pessoa como mentirosa.
Não sou, nunca fui e não quero ser santa. Me recuso, entretanto, a fazer parte do mal, independente do que mal seja. Vou continuar falando palavrão, me apaixonado e enchendo a casa de corações de papel, maltratando minha mãe às vezes e depois me sentindo escrota e injusta, ainda vou fazer muitos amigos errados, vou viajar quilômetros por amor aos meus irmãos, aos meus amores. Vou ser assim porque, na verdade, eu já sou tudo isso. Tá tudo errado e tá tudo certo. Tá tudo mudando e tá tudo bem. No final da vida, como eu já disse outras vezes, quero ter um colar de pérolas minhas pra mostrar pros meus netos e, olha só, às vezes eu quero tê-los (os netos), outras não. Daqui há pouco tudo muda, mas eu ainda vou querer estar com você porque, é fato, você me mudou.
Vem cá amor, me chama de “mentirosinha”.
domingo, 14 de novembro de 2010
Você venceu
Eu podia ter escolhido o caos, mas eu escolhi você. Tive medo de tantas coisas, corri atrás de tantas histórias que seriam piada na boca de outras pessoas, eu tentei escapar das escolhas que eu mesma fiz ao longo de todos os anos. Nada adiantou. Sempre ousei preencher suas lacunas com tantas outras pessoas. Eu me esforcei demais pra acreditar que a falta que eu sentia das nossas madrugadas eram apenas buracos que podiam ser recheados com qualquer sensação que suprisse o oco, com qualquer palpitação mais indicativa, com aquilo que latejasse no lugar certo, na hora certa e não necessariamente com a pessoa certa.
Mas eu confesso que fui burra. Porque eu me fazia de difícil mas todas as vezes que o sol levantava meio cinza era pra você que eu ligava. Porque nos dias de chuva era o seu cheiro e o peso do seu corpo no meu que eu queria sentir. Quando a madrugada esfriava e gelava os meus pés eu só queria trocar minhas meias por você me abraçando forte e fazendo o medo de congelar ir embora junto com as minhas sensações forçadas. A grande verdade de tudo é que eu me esforcei tanto pra acreditar que você não era o homem da minha vida porque eu jamais acreditei em nada tão brega como scarpins caramelo e amores de uma vida inteira.
A minha mania de banalizar sentimentos devia ter te empurrado pra bem longe de mim, mas o seu abraço é comprido e sua sede por mim é eterna e você não desistiu de me alcançar.
Quando eu disse que eu fiz tudo sozinha, que sem mim nada teria dado certo, que as manhãs continuariam incertas e que a verdade dos nossos olhos jamais seria descoberta, eu também estava mentindo. A minha alma covarde não foi capaz de assumir pra si mesma um amor, quem dirá assumir um passo tão nobre para o mundo. Eu precisava reclamar do que fiz pela gente pra acreditar que eu era melhor do que você e, assim, continuar desgostando de você. Mas eu não consegui.
A força está com você e as suas certezas transpiram não sei como dizendo à quatro ventos o quão melhor do que eu você é. Eu não tenho argumentos de negação.
E eu errei em cada pedaço mal contado da nossa história. Porque no fundo eu sei que quem conta esses capítulos sou eu, com a minha métrica compassada de quem acha que seu único dom é a palavra. Mais uma vez errada, então. As minhas palavras acabaram confundindo os caminhos tão claros porque eu sempre preferi o drama emocional; daí a sua admiração por mim quando eu me despia das minhas dúvidas e começava a fazer comédia.
Mas agora é risada e eu sei. Porque depois de tantos porquês não há nada mais justo que a felicidade simples, ainda que ela dure pouco, ainda que enlouqueçamos depois dela, ainda que a vida faça sentido só por aqueles segundos e depois não mais. O que me importa são os momentos felizes que estão por vir e que vamos viver sem medo do amanhã porque o nosso depois é o que passamos esperando por todo o agora.
Quero me segurar em você até não ter mais encaixe possível, quero suas mãos no meu rosto inteiro pra eu fechar os olhos gigante, pra eu poder chorar até secar a última mágoa na sua camiseta que agora vai ter o meu cheiro misturado no seu. Quero que o sol se ponha em silêncio pra ver a gente andar na praia, que as nossas bocas conversem grudadas e os nossos olhos aprendam a falar uns com os outros. Hoje eu quero o que eu sempre estive procurando com tantas outras pessoas por aí fingindo não saber que eu sabia que o meu breve momento podia ser eterno se eu entendesse que havia de ser com você.
Eu podia ter continuado na batalha, esperando ligações cheias de segundas intenções que não iam sair do vazio de uma cama cheia de lençóis, frustrações e distâncias pré-estabelecidas. Podia ter andado em linha reta pra não enxergar você a cada desvio, a cada ato falho da razão me mostrando a minha sensação por você fazendo força contra a vida mesquinha que eu queria levar pra não sofrer. Eu podia ter sido covarde por mais vinte anos, e mais vinte, pra sempre. Mas a sua coragem transbordou em mim e me deu a lucidez que faltava pra eu enxergar que a luz da chegada, o respiro do sossego e a leveza da escolha certa estavam guardadas, pra mim, em você.