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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Toda mulher tem um pouco

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De puta, de criança, de maluca. Toda mulher tem um pouco. Falo por mim porque vivi pouco tempo para fazer afirmações maiores. Falo por mim porque estou egoistamente presa na minha própria descoberta e existência. Mas pelo que tenho visto por aí, toda mulher tem um pouco de tudo. E como é difícil ser feliz com tantos poucos para agradar. Fora os milhares de hormônios que tornam cada um desses poucos mais do que dá para aguentar. E a cada suspiro, meus poucos se atrapalham: estou feliz ou com medo? Estou cansada ou excitada? Estou carente ou encantada? Estou fria ou fugidia? Numa única noite eu fui um pouco tudo, eu quis um pouco de tudo. Quando alguém vai acompanhar meu ritmo? Eu quis que ele não soubesse meu nome, depois quis ter o dele logo depois do meu. Eu quis que ninguém soubesse de tamanha traição. Depois quis gritar na janela como o proibido era sopro no meu coração. Eu quis sentir o poder de abalar com a vida dele. Depois quis que ele voltasse direitinho pra casa e esquecesse que existe a fraqueza. Eu quis ele por uma aventura, uma risada, uma distração. Depois quis o colo dele para sempre, mas fiquei com o meu pouco puta estampado na cara. Como eu preciso ser amada meu Deus, pra parar de dar de bandeja o meu sorriso por aí. Eu tenho meu pouco criança estampado em cada linha que escrevo e em cada bobeira que falo na espera de atenção. Maluca? Nas raras vezes que sou séria, me sinto tão maluca, que devo ser sempre maluca. De pouco em pouco encho o papo de ansiedade. Quando o muito virá? Eu nunca poderia ser feliz sem meu pouco trágica. Eu nunca posso estar satisfeita sem meu pouco idealista e eu nunca poderei ser mulher porque ainda falta pouco, muito pouco, mas eu sei que sempre faltará. Me completo de poucos, mas sigo esperando demais de tudo. Comida para cada um desses poucos que são buracos na minha alma. Meu pouco puta, safada, tarada, não tem um pingo de compostura. Meu pouco criança sofre e se diverte com o meu pouco louca. Meu pouco adulta perdoa tudo porque tem total consciência do meu pouco criança. Mas cada pouco espera o grande momento. A grande virada. O longo suspiro de paz. Cada pouco espera o colo, a excelente trepada, o beijo silenciador de neuroses, o abraço aquecedor de angústias. Cada pouca criatividade espera o salário digno, o carro novo, o cheiro de cada coisa minha conquistada. Corro no desespero desses dias, da vida que virá, dos sonhos realizados, da felicidade, do sorriso banguelo da pureza infinita de um ser gerado por mim. Da luz. Meu pouco pessimista sabe que nada disso pode acontecer. Mas sigo com meu pouco otimista, aprendendo que ele a cada dia aumenta um pouco. Quem em cada pouco põe tudo que é merece ser feliz. E muito.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Uma crônica sem título

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Ando um pouco impaciente. Não sei se um dia cheguei a ter alguma paciência, acho que não. Mas ando impaciente com a vida e com as pessoas. As coisas demoram pra acontecer. E eu tenho tanta pressa. É tanta coisa pra fazer que não sei se dou conta. É tanta coisa pra fazer que algo me trava, me impede de ir. Contraditório, eu sei. O mais lógico seria ter muito o que fazer e de fato fazer. Mas eu faço. Mentalmente. E aí quando chega em cima da hora eu me viro em novecentas e consigo dar um jeito de super-herói em tudo. Sempre foi assim. Na época da escola eu deixava pra estudar na última hora. O resultado foi uma bela e trágica reprovação. Dizem que a gente aprende com os erros. Eu preciso errar muito pra começar a fazer as coisas direito.O que é mesmo fazer direito? O que é mesmo ser normal hoje em dia? Acho tão fora de moda utilizar essa linha imaginária: daqui pra cá é normal, daqui pra lá é loucura. Todo mundo tem uma pitada de tudo. É esse o tempero das pessoas: um tablete de insanidade e outro da tal normalidade. Eu acho meio chato ser normal. É por isso que desde pequena me acham esquisita. Sardenta, sardinha, pintada. Me senti durante algum tempo inadequada, diferente. E descobri que isso não é ruim, não.Ando um pouco distraída com meus defeitos. Tenho aprendido com eles um pouco sobre tudo. Ando mais tolerante com meus erros. E mais aflita ao perceber as maldades do mundo. Isso me traz uma descrença no ser humano. Sabe, as coisas andam difíceis de engolir. Não sei lidar com egos, disputas de poder, puxadas de tapete, fofocas de sexta série y otras cositas más. Tenho mais o que fazer da vida. E acho que nunca estive tão focada na minha vida, nas minhas coisas, no meu futuro. É claro que já fui do clube da fofoca. Sou mulher. E já tive 18 anos. Mas hoje tenho a minha casa, as minhas contas, minha filha peluda, uma pessoa pra dividir a vida, o banheiro pra arrumar, roupas e louça para lavar, minha família que mora longe. Tenho meu trabalho, meus sonhos, meus projetos. Tenho ocupação. E descobri que quando eu vivia de fofoquinha tinha muito tempo livre. A cabeça ficava pensando besteira, então eu tinha tempo de sobra para falar da vida alheia. Quem nunca comentou do cabelo da fulaninha? Quem nunca especulou sobre a vida do outro? O problema é quando vira esporte e rotina. Aí é prejudicial, chato e sem graça. Confesso que morro de preguiça disso. É cansativo e desgastante. É tão mais legal cuidar da própria vida e ir atrás dos sonhos. E mais saudável também.De vez em quando me perco dentro de mim. É engraçado, mas fico contando coisas para meus botões. Listando tudo que quero fazer até o fim da vida. É tanta coisa que acho que não vai dar tempo. Vou torcer que dê. Porque a vontade de fazer é imensa. E intensa. Deve ser por isso que ando mais quieta, mais na minha, escondida em um cantinho de mim. Fico querendo guardar as coisas para não deixar escapar nada entre os dedos. É uma vontade louca de fazer. Ando escondida, eu sei. Vivendo por dentro e por fora. Às vezes aos trancos e barrancos. Mas acho que a vida é isso mesmo, um dia é bom e o outro é uma porcaria. Não dá pra ser feliz o tempo todo. Por sinal, desconfio de felicidades instantâneas e constantes. Soa meio falso. Gente de carne e osso é alegre e triste. É inconstante. Porque a vida é montanha-russa. E eu adoro andar nela. Por isso vivo sempre na fila do parque.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Direto do Planeta Solidão

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Lá estou eu em mais uma mesa com taças de vinho pela metade, risos pela metade, fumaças desenhando algo que quase formou uma imagem, restos de couvert e bolinhas inacabadas e nervosas de guardanapo.Olho pro lado e sinto uma saudade imensa, doída, desesperançada e até cínica. Saudade de alguma coisa ou de alguém, não sei. Talvez de mim, de algum marido fabuloso que eu tive em alguma encarnação, do útero da minha mãe, do meu anjo da guarda que está de férias em Acapulco, do meu avô que embrulhava sempre meu aparelho de dentes em um guardanapo e depois esquecia e jogava no lixo achando que era resto de algum lanchinho, de algum amor verdadeiro que durou um segundo, de uma cena perfeita que meu inconsciente formou na infância e que eu me encarreguei de acreditar como sendo meu futuro.maMeus amigos me adoram e certamente chorariam se eu morresse. Mas será que eles sabem que eu penso sempre na morte? Será que eles sabem que aquela garota alí no canto da mesa, de decote, de bolsa da moda, rindo pra caramba, contando mais u de suas aventuras vazias e descartáveis, acorda todos os dias pensando: o que eu realmente quero com essa vida? Como eu faço pra ser feliz?Será que eles sabem que se eu estou morrendo de rir agora, daqui a pouco vou morrer de chorar? E vice-versa? E isso 24 horas por dia? E isso mesmo com terapia, mesmo com macumba, mesmo com espiritismo, mesmo com meditação, mesmo com o namoradinho da semana. Será que eles sabem o tanto que eu sofro e o tanto que eu não sofro a cada segundo?Meus amigos me adoram. Mas sempre que podem, tiram sarro da minha cara. Sempre que podem, me transformam na chacotinha da mesa: Tati não sabe nadar, Tati não se droga, Tati não bebe, Tati expõe sua vida no site dela, Tati não arruma ninguém que a ame de verdade porque é louca, Tati assusta os caras, Tati é boba e se apaixona sempre, Tati não leva ninguém a sério, Tati explode por tudo, Tati fala demais, Tati fala palavrão, Tati reclama demais…Minha melhor amiga me ama muito, mas ela adora que eu seja o erro em pessoa só para ela se sentir o acerto em pessoa. Meu melhor amigo me chamou de infeliz um dia e eu nunca mais consegui rir da infelicidade dele. Meu outro amigo me adora, muito, mas se pudesse, de verdade, ele trepava comigo a noite inteira e nem me ligava no dia seguinte. Meus amigos me amam, muito, mas nem o máximo de amor de uma pessoa chega perto do que deveria ser amor. Amor não significa mais amor. E eu, mais uma vez, olho para o lado morrendo de saudade dessa coisa que eu não sei o que é. Dessa coisa que talvez seja amor.Sinto um nojo enorme e desesperador de todos os afetos em pílulas que posso ganhar. Fulano me acha a melhor companhia do mundo mas, pensando bem, ele pode desfilar com modelos por aí. Fulano pensa em mim todos os dias mas, pensando bem, ele tem que curtir a vida com seu carro novo. Fulano se diverte horrores comigo mas, pensando bem, ele também curte aquela tia tatuada que eu nem sei quem é e no fundo to pouco me lixando. Fulano passeou de mãos dadas comigo naquele fim de tarde que mereceu nossos aplausos, mas, quer saber? Viram ele dois dias depois de dormir na minha casa com outra numa festa. Fulano me apresentou para todos os amigos e encheu minha geladeira de comida mas, quer saber, putz, qualquer garotinha do bar dos pseudo-intelectuais malas também pode ser interessante ou, caso não seja, ao menos tem um buraco. Odeio todas as minhas pílulas, odeio todos os amores baratos, curtos e não amores que eu inventei só para pular uma semana sem dor. A cada semana sem dor que eu pulo, pareço acumular uma vida de dor. Preciso parar, preciso esperar. Mas a solidão dói e eu sigo inventando personagens. Odeio minha fraqueza em me enganar e mais ainda a dor que vem depois dos dias entorpecidos.Eu invento amor, sim. E dói admitir isso. Mas é que não agüento mais não dar um rosto para a minha saudade. E não agüento mais os copos, as fumaças, os amigos, as intenções e as bolinhas de guardanapo pela metade. É tudo pela metade. Ao menos a minha fantasia é por inteiro. Enquanto dura.No final bruto, seco e silencioso da melhor festa do mundo que nem começou, é sempre isso mesmo. Eu aqui tomando meu chá mate limão meio querendo chorar, meio querendo mentir sobre a vida até acreditar. Aí eu limpo a maquiagem com creme anti-sinais e percebo que não faz o menor sentido ser uma criança chorona preocupada com rugas. Aí eu me acho louca porque só tem duas coisas que eu realmente queria nesse mundo: um filho ou voltar a ser filha. E aí eu deito pra dormir e penso em sacanegem, mas também penso em coisas bonitinhas. E eu rezo pedindo a Deus que não espere mais eu ser legal para ser legal comigo, porque eu to esperando ele ser legal comigo para ser legal. Aí eu penso que ele já é legal comigo e que, talvez, eu já seja legal com ele. E que tá tudo bem. Mas se eu penso que tá tudo bem nesse segundo, isso só significa que vou pensar o oposto no segundo seguinte. E que eu escrevi “ele” sem maiúscula mesmo, porque amigo íntimo a gente não fica com essa coisa de endeusar. E eu queria que Ele fosse meu amigo íntimo, ou ao menos existisse. E quando vou ver, já dormi. Sozinha.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Moby dick invade Nova York

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Começou assim: eu subi as escadas e lá estava você, querendo parecer jovem com uma camiseta brega manchada de pasta de dente. Eu caí da escada e demorei anos pra me levantar. Eu te amava com uma mistura de todos os meus personagens e, por isso, tão intensamente. Eu era uma menina deslumbrada que amava ver suas invenções por aí, era uma menina carente que amava seu jeito de pai, uma mulher em formação que se formou com você, uma depressiva neurótica que precisava das suas piadas que deixavam tudo leve, até sua ausência e impossibilidade eu amava com toda a minha vontade de grudar em você pra sempre. Até que cheguei ao ponto de te amar sei lá por que, o que deve ser o verdadeiro amor. Eu nunca dormi de verdade ao seu lado para não perder nenhum dos segundos rápidos e preciosos que você me dava. Eu queria suas malas perdidas e suas lacunas falsamente calmas num canto descascado de uma sala morta, esperando a minha vida e a minha cor. Agora elas estão lá, e eu nem sinto vontade de saber onde. Por que raios você foi ultrapassar a linha da minha espera como alguém que testa sem intensidade o meu amor? Um dia seu cheiro começou a me dar um azedo na alma. Seu jeito, uma preguiça de me encantar. Suas palavras, um zumbido chato que me animava a prestar atenção em outra coisa. Era o instinto me dizendo que não dava mais pra sofrer. Amor também morre de saudade, sabia? E eu tinha saudade de te amar pura. Depois de levantar duzentas vezes e ir para o canto do ringue, cuspir sangue e ouvir a torcida dentro do meu coração gritar pedindo mais, eu fui a nocaute. Você sabia melhor do que ninguém que a felicidade me esmagava e eu ficava ainda mais carente quando ganhava carinho. Por isso você era em doses homeopáticas a pessoa mais carinhosa do mundo e também o ser mais frio do planeta. Muito em pouco, o máximo no mínimo, quase nunca pra sempre, nunca mais todos os dias. Mas agora você se distrai com as três passagens que comprou: uma para você e duas para a sua nova namoradinha, que é tão agraciada com culotes que precisa de dois lugares no avião. Ela não me parece dessas mulheres vaidosas mas, caso seja, e caso use cremes na bunda, sua nécessaire provavelmente será despachada. Não é inveja, nem ciúme, nem dor, é cansaço dessa vida banal que me arrota na cara toda vez que eu engulo ar para aumentar ainda mais a minha intensidade. Por que as pessoas são assim tão esquecíveis e passageiras? Por que planejar uma agenda de motivos para não ser de alguém com medo de se perder? É bode de imaginar patas grosseiras e mal cuidadas de elefante caminhando por seu assoalho que brilha vida nova, é tristeza em saber que suas mãos inchadas do batuque nunca mais vão me assumir, mas desfilam com a porpeta por esse mundinho idiota e fechado em que vivemos, é nojo de imaginar você adentrando naquela caverna gigante, peluda e úmida. Uga-buga para todos vocês, e fodam-se.

João e (a vellha) Maria

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Duas vezes eu quase morri de saudades de você. Uma quando eu vi Closer e lembrei que o amor, como deveria, não existe. E outra quando escutei sem esperar “Quem te viu, quem te vê” e lembrei que você era um pedaço charmoso de tudo o que o mundo e a vida têm de mais charmoso. Doeu lembrar ou aceitar que esse pedaço não existe mais nem no predinho azul e nem no sofá azul. Neste dia você finalmente morreu, e eu chorei de luto sem teatro, de luto não atual, de resto de luto. De um luto morto. Você namora, casou, sei lá, com a menina de bolsas e saias bonitas que não tem cara de louca. E essa é a minha vingança, porque eu sei que você é mais feliz sem loucura, mas a felicidade e a normalidade não existem. Eu ainda acho que a gente tinha alguma verdade que faz você, nem que seja a cada 100 anos, arranhar um Chico Buarque em meu luto. Um luto cheio de vida. Vez ou outra chegam aqueles seus emails que você responde por educação e são cheios de frases quase íntimas envoltas pela maior frieza do mundo. É como se a cada letra você reafirmasse que somos amigos cheios daquela inteligência de camaradas descolados e bem resolvidos que, como tudo na vida que ainda respira e tem cor, seguiram em frente. Sim, somos isso mesmo, claro. Mas eu caguei para tudo isso e fico com o seu abraço naquele fim de festa estranho em que você foi o dj e, para a minha surpresa, me fez matar a saudade do meu mundo. Eu fico com as danças que sem nenhum medo das críticas eu improvisei para o nosso espaço no universo. Dancei como uma bailarina que volta a funcionar milagrosamente, e pela última vez, numa caixinha de música quebrada. Eu fico para sempre com o que você plantou em mim, essa erva do mal. Você sabia que me tornei uma mal-humorada-pseudo- intelectual totalmente insuportável e crítica? Você ao menos era culto de verdade. Você está bem onde está, eu estou bem onde estou. Mas, como aconteceu naquele dia na praia, em que eu passei indo com meu novo amor e cruzei você vindo com seu novo amor, não tem como a gente não olhar para trás.

1 ano de namoro (quase)

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A gente quase completou um ano de namoro, quase.Faltou um mês ou um pouquinho mais, não lembro.Mas hoje, sem mais nem menos, completamos um ano de separação.Ano passado essa hora, exatamente a essa hora, eu lembro bem.Eu estava no show do U2 que você não quis ir comigo e me ocupava em perguntar, de dez em dez segundos, e de dez em dez pessoas, quando é que você iria me ligar e dizer que tinha pensado melhor.Quando? Você nunca ligou, nunquinha.E eu esperei, esperei, esperei tanto tempo, nossa, como eu esperei.Acho que eu nunca esperei tanto nada em toda a minha vida.Outro dia a Myla me perguntou o que você tinha me ensinado.A gente estava conversando sobre os legados que as pessoas deixam em nossas vidas e ela quis saber qual tinha sido o seu.O coiso me ensinou a gostar de MPB e cinema europeu, o outro coiso me ensinou a gostar de sexo e restaurante caro.Teve o coisinho que me ensinou a ser engraçada e jogar frescobol. E você?Que raios me ensinou?Fiquei sem saber na hora, fiquei sem saber o que responder para a Myla.Mas hoje, no nosso aniversário de um ano separados, posso dizer que foi você quem me ensinou a lição mais importante da minha vida: você me ensinou a sofrer.Eu nunca, nunca, em vinte e sete anos de vida, tinha sofrido.Nunca. Claro, eu odiava ver meus pais quebrando o pau quando era criança, mas eu lembro que eu, pequenininha, pensava: um dia um príncipe vai me levar para longe dessa casa com gente louca que fuma demais, berra demais, desmaia e chuta vasos. Eu sofri também na escola, quando para alguém me enxergar eu tinha de promover bizarrices. Mas eu era muito nova para me separar das bizarrices e acabava também chamando a minha atenção: será que eu sou bizarra?Depois, em casa, quando eu dobrava direitinho o uniforme para o dia seguinte e me sentia um papel de parede bege que ninguém entende pra que serve, eu pensava: um dia um príncipe vai me levar pra longe dessa falta de vida, dessa falta de beleza, dessa falta de compreensão, dessa falta de cor, dessa falta de sei lá o que porque eu era novinha demais pra saber o que faltava.Esperar o raio do príncipe sempre disfarçou minha dor, sempre me refugiou dela. Mas quando você, no dia 20 de fevereiro de 2006, me mandou seguir meu caminho sozinha, fiquei sem saber como fugir da dor.Você era meu príncipe.Depois de tantos amores estranhos, pequenos, errados e tortos, finalmente eu tinha reconhecido no seu olhar centralizado e no seu sorriso espalhado, o meu príncipe. E o meu príncipe estava me dando o fora. Que porra eu ia esperar da vida agora? Quem iria me levar para longe se você não me queria mais por perto? Não teve como. Foi a primeira vez na vida que não consegui me enrolar e acabei deixando a dor vencer. Pela primeira vez a realidade falou mais alto que a fantasia. Pela primeira vez a realidade da sua ausência falou mais alto que a fantasia de anos a sua espera. Sofri pra caralho, como diz por aí quem sofre pra caralho.Mais do que livros cabeças, músicas bacanas, frases inteligentes, lugares descolados ou posições sexuais, você me ensinou o que realmente importa aprender nessa vida: que a vida pode ser uma grande, imensa e gigantesca merda.É, ela pode ser. E que não existe porra de príncipe porra nenhuma. Que nem ninguém e nem nada pode te levar para longe de nada. É isso e pronto. E é assim pra todo mundo. E pronto. Qual o drama? A dor infinita dos dias infinitos que vieram depois do dia em que você se foi pra sempre veio misturada com toda a dor que eu não senti em todos esses anos.A dor infinita dos dias infinitos que vieram depois do dia em que você se foi pra sempre veio misturada com toda a dor que eu não senti em todos esses anos. A dor do seu pé na bunda trouxe vasos jogados, bitucas eternas de cigarros em longas discussões pesadas, tardes perdidas em odiar o mundo, cabeças viradas, corredores frios, papéis de parede beges e grupinhos festivos e fechados. A nossa dor acabou sendo toda a dor que fazia fila em mim para ser sentida. E já que a porta pra realidade estava aberta, por que não sofrer também pelas criancinhas carentes, os países em guerra, a estupidez humana e a dor das juntas da minha mãe? Por que não sofrer pela condição das favelas, das prisões e da Terra? Por que não temer o aquecimento global, o ácido dos limpadores de vidro na Henrique Schaumann e as frases do Clodovil? A dor da sua partida trouxe toda a dor do mundo. De uma só vez. Mas agora já passa da meia noite. Não é mais nosso aniversário de fim e, pra te falar a verdade, eu já não sofro mais o nosso fim faz tempo. E pra te falar ainda mais a verdade, eu acho mesmo que você foi o príncipe que eu esperei a vida inteira. Você chegou e me levou embora. Levou embora a menina que tinha medo de sentir a vida e esperava uma salvação para tudo. Quem sobrou é essa desconhecida que se conhece muito bem em suas bizarrices, lê jornais todos os dias, substituiu o bege pela cor do verão, tem uns pais gente boa ainda que malucos, adora os poucos e estranhos amigos, não espera mais pelo cavalo branco mas fica ansiosa pelo início da novela e talvez esteja pronta para amar de verdade. Amar um homem e não um príncipe.

O homem da escada

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Ele comia a professora de Power Ioga do 43, comia a ex-semivirgem que de tão magra a gente via os pêlos pubianos, porque o osso da bacia levantava o biquíni, e comia até a Rose, mãe da Paulinha, mulher casada havia doze anos e meio e que vivia suspirando e esticando os pés de galinha no espelho do elevador.Um belo dia, o porteiro encheu os olhos de via e contou pra minha empregada: “Ele comeu a dona Silvia na escada do prédio”.Dona Silvia não prestava nada, até cantavam pra ela da quadra lá de baixo: “Ô Siiiilvia, piraaaaanha”. Coisa que os pais devem ter ensinado, porque essa música é velha demais para estar na boca de adolescentes espinhentos que batem Playstation todos os dias. O fato é que o porteiro encheu muito os olhos de vida e continuou: “deu pra ver tudo pela câmera de segurança ela ficou de quatro e ele mandou ver.. uma, duas, três vezes”.Não sei ao certo que máquina sexual em forma de vizinho pagava uma caixinha para o porteiro sair falando pelo prédio espalhando tantos elogios ao seu desempenho, e por isso mesmo comia todo mundo, ou se aquilo era apenas uma conversa corriqueira na porta da minha cozinha, entre uma canção e outra da rádio Evangélica da Maria. Só sei que comecei a gostar tanto do papo que até sentei para ouvir melhor.O porteiro soltou uma imensa gargalhada, transbordou de vez uma louca vida dos seus olhos, e concluiu: “antes de largar a dona Sílvia lá, caída no chão, ele fez um tchauzinho para a câmera de segurança, a gente tava tudo lá, e os outros, e aplaudimos o seu Flávio de pé.”Eu não precisava ouvir mais nada, estava decidido, ia dar pra esse cara, esse cara era o cara, era o comedor, era o homem perfeito para gente se divertir um pouco enquanto o amor não vem. Era o cara capaz de esquecer o romantismo e celebrar a vida mundana.Sim, eu sou uma nova mulher, uma mulher que faz curso de astrologia, ioga, meditação, mitologia. Uma supermulher decidida a morar sozinha, a ser feliz sozinha, decidida a viajar pela Europa, decidia a nunca mais ter emprego idiota que não permita cursos divertidos, viagens e curtir a minha plena existência. Independente, espiritualizada, analisada, madura… mas francamente: o cara mandou uma, duas, três na escada, e ainda deu tchauzinho para as câmeras? Que se dane o espírito e a evolução, meu ego precisava trepar com esse ser divino e pronto.Usei a minha tática predileta para comer um homem: um dia, como quem não quer nada, numa dessas cruzadas pelo estacionamento do prédio, comentei que era escritora. Não sei explicar o que acontece quando um cara descobre que eu escrevo, é mais de meio caminho andado para querer desesperadamente me conquistar.Não sou promoter da Lótus nem faço “superinsane guetto no brain mega popstar da super gatas iradas da festa do branco do Sirena”, sou apenas uma escritora que sente a bunda flácida de frente pro laptop e escreve a porra do dia todo. Mas eles não estão nem aí, eles querem comer minhas personagens, minhas putarias, minhas neuroses a fotinha que sai na coluna da VIP, minhas fãs do Orkut, minhas estranhezas, o glamour da licenciatura, sei lá… “Uma loirinha jeitosinha e ainda sabe escrever mais de um parágrafo sem falar ‘tipo assim, irado’? Desse tipo assim ainda não experimentei”.Não deu outra. No mesmo dia, provavelmente após ele ter lido alguma coisa minha (claro que dei todas as pistas), chegou um longo e-mail com mil elogios à minha sensibilidade e um amável convite para irmos jantar no dia seguinte.Topei e corri para o armário: o homem deu uma, duas, três na escada e ainda deu tchauzinho para as câmeras merecia a produção mais sexy do mundo. Achei estranho quando as flores chegaram pela manhã e mais estranho quando ele abriu a porta do carro para mim. Mas tudo bem, daqui a pouco, o macho animalesco ia surgir e me comer em cima do capô, atrás da igreja ou no banheiro do restaurante. Aquilo tudo era figuração para prorrogar o clímax e torná-lo ainda mais feroz.Fez questão de pedir um vinho chique de uma uva sul-africana chique e ainda pediu que acendessem as velinhas da nossa mesa. Segurou nas minhas mãos, brilhou os olhos e falou cheio de ternura: “ontem você me fez chorar”.Não, não, ele só pode ter confundido o verbo, provavelmente quis dizer: me fez gozar, me fez ficar louco, me fez ter que dar uma, duas, três no banho, me fez qualquer coisa mais animadinha… mas chorar?Ele continuou: “sabe, não agüento mais essas conquistas vazias pelo mundo afora, o sexo sem alma, a falta de companhia inteligente para uma vida”.Mas justo na minha vez? Poxa, a professora de ioga tinha gritado tanto na sauna que deu pra ouvir até no quarto andar seus mantras. Depois ele desvirginou a modelete ossuda que vivia pagando de gatinha e até eu queria pegar, depois quebrou o galho da Rose que via o mesmo pinto mole havia mais de doze anos, e fechou com chave de ouro comendo a Silvia, tal qual uma cadela. Justo na minha vez ele queria filminho do Hugh Grant embaixo do edredom? O que eu tinha feito para merecer tanto desprezo?“Olha, eu vi em você o que sempre procurei em uma mulher: profundidade”. Então, amigo, isso mesmo, profundidade, não vai querer conhecer a profundidade agora embaixo da mesa?Ele passou a noite toda olhando nos meus olhos, sem desviar um segundo para meu decote, Contou da separação dos pais, da dificuldade da irmã em engravidar (aproveitando para deixar claro que está louco para ser pai) e quanto amava os cachorrinhos, a natureza e o amor.Quando finalmente chegamos juntos ao elevador do nosso prédio, ele apertou seu andar e o meu, matando de vez qualquer esperança de ser devorada loucamente aquela noite. Se despediu com cara de bobo e ainda mandando mensagem de texto pelo celular quando eu já estava frustradamente deitada na minha cama: “foi uma das melhores noites da minha vida”.Dormi mais uma vez me sentindo usada pelos homens.

domingo, 6 de novembro de 2011

Noite Feliz

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Assim como nasceu meu amor por você, também morreu. De uma maneira ridícula. Eu lembro bem, cheguei na sua casa atrasada, perfumada e sem grandes intenções. E você me recebeu suado e sem graça porque, afinal de contas, era tudo mentira que sabia cozinhar. Pra piorar, a pizza chegaria em instantes, mas seu interfone estava quebrado. Você me olhou como umacriança que é pega fazendo arte e eu te amei loucamente. Naquele segundo,a chavinha virou pra direita e catapuft: te amei absurda e infinitamente.Eu tinha motivos reais, palpáveis e óbvios para te amar. Você é bonito, seu abraço é quente, seu sorriso tem milquilômetros iluminados, seu humor mefaria rir 100 encarnações e você é bom em tudo, mesmo não querendo ser bom em nada. Seu coração é gigante, tão gigante que você, por medo, prefere a superfície.Mas eu te amei, mesmo, por causa daquele segundinho, o segundinho que a chavinha virou para a direita. O segundinho da pizza e do interfone.E assim foi por quase dois anos. Eu me perguntava quando isso teria fim. Motivos profundos, nobres e óbvios para deixar de te amar também não me faltaram, mas nenhum deles foi suficiente ou funcionou.Você acompanhou com olhos humildes e humilhados todos os passos da sua ex naquela festa e eu continuei te amando.Você confundiu Chico com Vinicius e eu continuei louquinha por você. Você tinha aquele probleminha de não segurar o prazer e meu maior prazer sempre foi qualquer segundo ao seu lado. Você me largou sozinha naquele hospital, com a minha mãe sem saber se tinha ou não metástase, e foi para a praia com seus amigos bombados. E eu, no fundo, te perdoava, te entendia, te amava cada vez mais. Você me mandou embora da sua casa, do seu carro, da sua vida, da memória do seu computador, do seu celular e do seu coração. Você me deletou. E eu passei quase um ano quietinha, te esperando, rezando pra Santo Antônio te ajudar a ver que amor maior no mundo não poderia existir.Eu segui amando e redesenhando cada dobrinha da sua pele, cada cheiro escondido dos seus cantinhos, cada cílio torto, cada risada alta, cada deslumbre puro com a vida, cada brilho nos olhos quando o mar estivesse bonito demais. Cada preguiça, cada abandono, cada estupidez, cada limitação, cada bobeira. Amava seus erros assim como amava os acertos, porque o que eu amava, enfim, era você.
CATAPUFT!
E eu me perguntava, quase já sem agüentar mais, sem entender tamanha entrega burra, quando isso finalmente teria um fim.Quando minha coluna ia voltar a ser ereta, minha cabeça erguida e meus passos firmes? Quando eu iria superar você? E foi assim, sem avisar, por causa de um segundo sem grandes enredos, que a chavinha, catapuft, fez meia volta e virou para a esquerda. Me devolvendo a mim, me devolvendo à vida. Dissolvendo você no ar, trazendo cores, cheiros e possibilidades de volta. Matando o homem que eu mais amei na vida bem na noite de Natal.Enquanto todos comemoravam o nascimento de Deus, eu comemorava a sua morte. A morte de quem e para quem eu já tinha sido mais fiel, refém, escrava e discípula do que para qualquer outro deus.Era véspera de Natal e você me ligou. Meu coração se encheu de esperança, de pureza,de fé, de alegria. Do outro lado, sua voz na salada e banal me disse, assassinando meu coração e se suicidando na seqüência: essa ligação não é uma recaída natalina, não,é apenas porque eu tava aqui, sem fazer nada, e pensei… quer trepar? Catapuft.Não, eu não quero trepar. Mas quer saber? Eu também não quero mais te amar. O menino da pizza e do interfone virou um homem solitário, infeliz e descartável. Catapuft. Pode parecer loucura, mas tirar você do meu peito foi o meu melhor presente que já ganhei.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Cuida bem de mim

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Não acredito que alguém consiga ser plenamente feliz sozinho. A gente se distrai muito até encontrar o amor de verdade. Desculpe, mas sou piegas assim: acredito em amor de verdade. Você pode encontrar muita gente pelo caminho. Muitas enganações, muitas promessas, muitos beijos, muitos corpos e corações. Mas a gente sente quando ele, o amor, chega pra ficar.Você sente pela sensação de conforto que ele oferece. Pela calma. Pela paz. Por ajeitar tudo lá dentro do peito. É que as paixões nos
bagunçam. Nos desarrumam. O amor arruma tudo. O amor faz uma faxina emocional. O amor deixa tudo limpo, novo, claro. A paixão dá uma sensação de poder, faz o chão sacudir, seu corpo balançar.
O amor traz segurança, tranquilidade. O amor é sereno.Durante muito tempo eu quis sentir aqueles efeitos e reflexos de paixões. Elas arrebentam, arrebatam, atormentam. O amor, não. O amor tem o mesmo efeito de um abraço bem longo e apertado. Ele te deixa com a cabeça nas nuvens e os pés no chão. É que amar é ter os pés no chão. Olhar para a frente junto com o outro.Amor é realidade, dia a dia, dificuldade. Amar é vencer uma batalha todo santo dia. Porque não é fácil conviver com alguém. Não é fácil dizer olha, te entrego meu coração, meu sentimento, minha emoção. Olha, cuida bem de mim. Cuida do que eu sinto. A gente tem que baixar a guarda, engolir o orgulho, se deixar levar. Se perder para se encontrar. O amor é um encontro. De você com você mesmo. Amar é se ver nos olhos do outro. Mesmo que ele esteja com os olhos fechados.Acredito que existem amores saudáveis e amores prejudiciais. Amor saudável é aquele que une, junta, agrega. Amor prejudicial é aquele maluco, possessivo, que separa, que isola. É muito ruim quando seus amigos ou família não gostam da pessoa que você escolheu para viver junto. Amar é querer reunir todo mundo que mora no seu coração. Ainda bem que eu consegui. E consigo todo dia.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Gira - Gira

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Eu tinha treze anos, ele uns quinze. Não lembro o nome exatamente, mas me recordo que ele torcia para o Palmeiras e,quando tinha jogo, eu escutava seus berros desafinados.Ele tinha as sobrancelhas grossas e pulava na piscina gelada sem medo de levar bronca da mãe.A roupa dele tinha cheiro de amaciante e por alguma razão aquilo me trazia conforto.Um dia ele olhou bem no fundo dos meus olhos, apertou meu braço e disse que à noite eu teria uma surpresa.Eu esperei por ele a noite toda,de pé,espiando pela janela do meu quarto.Meu quarto ainda tinha bonecas e bichinhos de pelúcia,e todos eles tiveram pena do meu cansaço e da minha ingenuidade.No dia seguinte eu acordei sem hálito de criança e perdi pra sempre o doce da boca.Eu tive minha primeira azia com lactose no café da manhã e vomitei.Foi a última vez que vomitei na vida. Eu tinha dez anos,ele também. nome era Felipe e ele se sentava duas carteiras à frente da minha.Ele jogava bola tão bem que podia faltar à aula para ir aos campeonatos da escola.Um dia ele escreveu "Te amo,quer namorar comigo?" num bilhete e entregou para mim.Eu lembro que li e tive uma tontura tão grande que achei que fosse morrer antes da prova de matemática(e fiquei feliz, porque não tinha estudado).Quando fechei o bilhete,vi que estava escrito "Melissa".Ele havia dado o bilhete apenas para eu entregar para a menina que sentava atrás de mim.Eu senti tanta vergonha,tanta vergonha,tanta vergonha,que pedi à professora para ir ao banheiro.Quando cheguei no banheiro,fiz várias caretas para o espelho.Até hoje não sei por que exatamente.Talvez quisesse ficar tão feia quanto estava me sentindo.A calça da escola me deixava horrível e eu amarrava o moletom na cintura.A Melissa não precisava disso,ela ficava linda naquela calça,era bailarina.Apertei tão forte aquele moletom na minha barriga que as marcas do elástico ficaram por quatro dias desenhadas na minha cintura.Eu tinha 5 anos, ele 6. Ele se chamava Thiago e tinha um irmão chamado Pablo. Ele corria tanto com o gira-gira que eu achava que meu coração fosse pular pela boca. Ele colocava a mão sobre a minha quando eu fazia que ia sair do gira-gira, e apertava a minha mão. Eu sempre fazia que ia sair só para ele colocar a mão sobre a minha.Um dia eu simplesmente o agarrei e dei um beijo de língua nele. A professora chamou minha mãe na escola para contar e minha mãe, puxando de leve a minha maria-chiquinha, perguntou à professora quem era o Thiago."É aquele ali na aula de ginástica." Quando olhamos, ele estava todo sujo e com o nariz escorrendo.Eu ouvi da minha família toda, até poucos anos atrás, que eu gostava de
"ranhentos".
Um dia ele me trocou pela Dani, uma garotinha de sardas que tinha irmãos e não usava botinhas ortopédicas. Eu lembro até hoje de ter perguntado à minha mãe se sardas eram doença. Torcendo muito para serem.Hoje tenho 25 e eles têm idades, nomes e manias variadas. E por mais que eu olhe para o meu escarpin, ainda vejo aquelas botas grosseiras numa canelinha fina.As Danis com sardas e Melissas bailarinas ainda existem, e elas continuam tendo a família mais descolada do mundo e ficando lindas em calças de moletom.Por mais que meu corpo durma, minha alma continua na janela esperando você aparecer, ingênua e cansada.Eu continuo acordando todos os dias com saudade do doce e com medo do azedo. Eu continuo fazendo caretas e sou a única que não vejo muita graça nelas.O gira-gira não pára nunca, meu coração continua acelerado e continuo fazendo que vou pular fora para você me socorrer. Para você segurar bem firme na minha mão e me fazer ter coragem de arriscar o vento na cara e o mundo muito rápido. Coragem para o mundo que dá tantas voltas.Eu ainda espero chegar a minha vez de receber o bilhete "Te amo. Quer namorar comigo?" apesar do moletom na cintura e das marcas causadas por ele e por todo o resto.

domingo, 18 de setembro de 2011

Um copo de agua

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Eu mastigava com culpa cinco daquelas bolinhas de amendoim. Não era culpa, era ansiedade. Não, era tédio. Minhas amigas conversavam longamente sobre algo que não me interessava nem por um segundo. As chatices do marido, as chatices do trabalho, as chatices do trânsito. Minha vida não é chata. Desde muito novinha decidi que minha vida não seria chata. Eu inventaria um trabalho, uma casa, um dia, um modo, um jeito. E inventei. As festas na Carol sempre tinham comidas incríveis mas, naquele dia, eram só bebidas. Eu não bebo. Quer dizer, agora, de vez em quando, comecei a beber só porque entendi quando me falavam que sem álcool é tudo muito pior. Então passei a beber pouco. Uma taça de vinho? Mas naquele dia eu não podia beber porque não tinha comido e também porque não estava a fim. Eu estava a fim de ir embora. Voltar pra minha vida que não era chata mas ficava chata quando percebia que eu tinha uma vida dentre todas aquelas vidas que se faziam perceber. Olhei pra porta. Ela abriu e você chegou. Eu não te via há 3 meses e alguns dias. Foi então que o narrador do meu cérebro pigarreou e mudou o tom. Eu me narro tudo desde que me tenho por cérebro. Como se o tempo todo eu me contasse e contasse o mundo. Para ver se eu existo e se o mundo existe. Para ver se eu me suporto e se suporto o mundo e se o mundo me suporta. É insuportável, mas o tempo todo minha cabeça narra tudo. Minuciosamente, detalhadamente, dolorosamente. O tempo todo eu cavoco o segundo, o pó, a pele, o que se diz, o que se parece. Tentando narrar o mais profundo do profundo do que eu poderia narrar. Só pra responder o mais profundo do profundo do que eu poderia perguntar. Então o narrador começou dizendo assim "e então ele entrou por aquela porta". Você entrou por aquela porta. Eu apertei o braço da Fernanda: "é ele! Ai, meu Deus, é ele". Quem, Tati? Ele. Mas qual dos "eles"? Você tem tantos "eles", Tati. O último. Você era o último homem que eu tinha amado e, portanto, o "ele" da vez. Com seu cabelo alto, largo, rococó. Eu amo seu cabelo. Amo os cachos mais brancos que parecem ornamentos rococós para suas orelhas. Os puxa-sacos te abraçam. Eu percebo quem gosta de você e quem só te abraça porque um dia pode precisar de emprego. Alguns te abraçam gostando de você. E então eu fico feliz, porque eu gosto que gostem de você. Porque você é o tio da Lia, a bebezinha que pensa muito antes de rir pra qualquer bobagem. Você é o cara que, quando foi embora, me deixou sentindo uma dor bem enorme, mas eu gosto de você, você não fez por mal. Seu mal nunca foi por mal. Então, eu gosto que gostem de você. E o narrador me narra seus tênis sempre tão publicitários. Seus pés gordinhos e pequenos e tão perfeitos pra carinhos. E narra sua roupa de chefe descolado. E narra o segundo em que você me percebe na festa e cochicha no ouvido do seu amigo alto. E narra todas as infinitas vezes em que você passou por trás de mim, esperando que eu me virasse e concordasse com seu "oi" cordial. Preferindo que eu não me virasse, assim você podia não sentir essas coisas complicadas todas que sentimos juntos. Então, cansada de te narrar, chamei firme seu nome, com um sorriso maduro. Mordendo a língua que tremia batendo no céu da boca. Minha língua, quando te vê, quer logo te dizer coisas lindas e assustadoras. Então é uma luta prendê-la no céu, deixando na terra apenas meu cordial "oi" que você queria sem querer. Então fomos pegar água. Brindamos com a água. Você com sua mania de conversar quase dentro da minha cara. Eu vesga de te ver tão perto. Seu charme míope e inseguro. O menino inseguro que conversa colado na minha retina. Que insegurança é essa? Eu não te pergunto nada, apenas desejo tanto você que sorrio como se não me importasse com sua existência. Mas você resolve se explicar mesmo assim. Porque "seus olhos estão sempre me perguntando algo", você diz. E você começa sua loucura que me faz gostar ainda mais de você. Empurra a palma contra o peito e diz "eu gosto assim, Tati, fechado, protegido, eu gosto". Então você olha para o meu copo d'água e diz: "eu sou só um copo d'água, mas você ficava me olhando e pensando nas bolhas e nos gelos e nos canudinhos e na transparência e se a água era isso ou aquilo. Água é só água, por que você complica a água, Tati?". Então apagaram a luz e eu quis me esconder dentro do seu paletozinho de publicitário descolado e ouvir suas batidas descompassadas e embaladas pelo seu cheiro de alma boa. Mas você pegou na minha mão e continuou dizendo que uma mão, muitas vezes, é apenas uma mão. Mas que eu insistia em enxergar os buracos entre os dedos, os anéis que separavam os dedos, a dor da separação dos dedos, a gota da bebida gelada entre os dedos. E que você não poderia suportar isso. A maneira como eu te olhava. Vendo mais, inventando mais, complicando mais. E eu quis te dizer que tudo bem, eu seria uma menina simples. Eu mataria meu narrador, minhas possibilidades, meus mundos, minhas invenções. Só de ver seus cachos mais grisalhos e rococós ornando seus medos e superficialidades eu desejei não ser mais eu pra ser qualquer coisa que pudesse ser sua. Mas enchi meu peito surrado e murcho de coragem e te disse que, infelizmente, onde você era apenas um copo d' água eu era a tempestade.

O Estivador Amendoado

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Volto com o pescoço alongado de tanto perseguir com queixos altivos a sua beleza. Um nem aí escravo. O estivador amendoado não é seguro mesmo dentro de tanta enlouquecedora beleza. Enquanto ele se move de um canto a outro da festa, como dezoito sobremesas de chocolate para não ajoelhar no meio do evento, na frente de todos, e abrir o zíper do estivador amendoado. Sinto espasmos de ataque percorrendo meu corpo. Cada centímetro de mim quer ter boca para degustar cada centímetro do estivador amendoado. Seu braço é uma coxa minha e isso me emociona mais do que cem garotos angelicais lendo Dostoievski em puro russo. Medi com uma língua imaginária seus ombros e na metade, próximo a nuca, acabava a minha saliva. Você é homem de exaurir pessoas e suas imensas porcentagens de água. Sua existência exige do mundo melhores peles, melhores líquidos, melhores pelos. Você constrange a humanidade só de respirar. O oxigênio volta mais agradecido sempre que pode entrar e sair do seu largo e desenhado peitoral. Mas o estivador amendoado, ainda mais bonito por não saber de tamanho poder, fica frágil e sente ataques de ansiedade. E desaparece. Vai tomar ar como se o ar já não estivesse louquinho de desejo para ser tomado por ele. Acha que é doença mas é a lua que implora para vê-lo novamente. É o céu que cansado de embrulhar tanta gente feia clama por sua existência ao ar livre. É o sol que exaurido de iluminar os erros humanos precisa ser ofuscado um pouco por outro astro. Sim, nada é mais brega do que observar o estivador pensando tantos elogios de botequim. Estivador vai até a sacada, fecha os olhos, lamenta algo. Não lamente mais, eu dedicaria cada segundo da minha vida em vesti-lo, alimentá-lo e animá-lo. Sente-se nu em meu sofá e ganhe cinqüenta reais a cada vez que seus olhos amendoados piscarem. Mais cem reais a cada vez que seus cabelos amendoados caírem sobre seus cílios amendoados. Eu não sei que cor é essa "amendoada" mas sei que você é todo dessa cor que não sei direito. A cor de um dia frio com sol. A cor de uma noite com luzes quentes. Eu pagaria imposto a Deus pra ter você em minha casa, eu pagaria imposto ao diabo pra não ter você em minha casa por alguns dias só para me assustar dessa forma, depois, quando você surgisse de novo do alto da escada, perguntando se vou querer pipoca ou chocolate. Você me assusta como deve ser a alguém miserável encontrar um carro forte abandonado. Estivador amendoado, você arrancou as talas dos meus braços, sua beleza endureceu meus dedos. A ereção dos dedos que precisam te tocar então tocam as letras e formam um texto para usufruir você. Escrevo pra ver se gozo de alguma forma e volto a dormir. Você me dá ânsias em lugares que não tenho. Você sorri com sua cara séria e nunca sei se você está se divertindo ou odiando tudo. E então começo a fabricar sêmens dentro do meu coração. E então meus buracos se transformam em lanças para te furar inteiro. Fico tão fêmea que nem pareço mais com uma mulher. E então sinto dores inchadas em minhas bolas quando você parte mais uma vez, sem que eu pudesse lamber suas axilas e morder sua virilha e chupar seus dedos. Eu desejo trepar com pedaços seus que não são só feitos de orifícios, línguas e paus. Eu desejo trepar com seu nariz, colovelos, calcanhares e com os ossos salientes da sua bacia quadrada. Bacia quadrada, rosto quadrado. Você num quadro, milhões de euros, eu a pagar com gosto e sem pressa o preço mais caro do mundo. Mas em centavos, para que nunca termine a imensa oferta da sua beleza.

sábado, 17 de setembro de 2011

Márcio

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No primeiro colegial, com treze ou quatorze anos, eu gostava de um garoto chamado Márcio. Ele era branquinho e tinha os cabelos castanhos cacheados. Ele namorava a Priscila, uma menina bonita e riquinha e bailarina e de cabelos lisinhos e amiga de todas as outras meninas iguais a ela. Mas a Priscila e suas amigas não faziam sexo. E todo mundo era louco pra fazer sexo com elas. Eu era o que se podia chamar de beleza indefinida. Não era de todo mal, mas também não era a óbvia lindinha. Cabelo nem pro liso e nem pro cacheado e nem pra nada que pudesse ser um estilo ou moda ou até mesmo um cabelo. Roupas do mesmo jeito. Nem feias, nem bonitas. Corpo do mesmo jeito. Nem magra atlética, nem gordinha desleixada. Um meio do caminho que piorava muito quando era dia de uniforme. Não chegava a andar com as meninas feias mas nunca fui amiga da Priscila e das amigas dela. Eu era média.Foi daí que eu tive a ideia. Eu tinha algo que aquelas meninas não tinham: eu fazia sexo. E calmamente caminhei até o Márcio, na hora do recreio, e falei: quatro horas na minha casa, eu vou fazer sexo com você, tudo bem? Ele respondeu sério, sem rir, sem parar pra pensar: me passa seu endereço que eu peço pra minha mãe me levar. Sai pisando firme, com os olhos apertados e com as unhas enfincadas nas palmas das minhas mãos. Minha vontade era sair correndo e só voltar pra escola na outra encarnação. O que tinha me dado?Pois bem, às três da tarde, sem conseguir conter o coração e o intestino, tento expulsar minha empregada de casa. Mas o que você vai aprontar? Sua mãe sabe que vem um garoto estudar aqui? Maria, cadê aquela minha calcinha de renda branca? Convenço Maria a ir embora às quinze pras quatro. Prometo a ela que, se ela não contar nada pra minha mãe, a deixo ir embora todo dia mais cedo e também não conto nada. Quatro em ponto, vejo da janela do meu quarto um Escort vermelho parando em frente ao meu prédio. Márcio desce cheio de livros. Sua mãe o acompanha até a portaria. Ele entra. Meu coração vai parar na língua. Eu vou fazer sexo. Eu consigo fazer. Ele vai enfiar o pinto dentro de mim. Eu vou ficar bem quietinha até parar de doer. É isso. E amanhã, na hora do recreio, ele vai…. Ele vai o quê? Continuar namorando a Priscila, que é bailarina e tem o cabelo lisinho e é amiga das meninas mais bonitas da escola. E eu? Eu vou ter gêmeos, que ele não vai assumir, e eu terei que ir à escola e fazer as provas apesar da barriga. E serei motivo de fofoca pra sempre. E ele não vai falar comigo porque não sou exatamente linda e nem exatamente muito normal e ele nem é da minha turma. Seu pai vai ligar pro meu "precisa de alguma coisa?". Meu pai não vai querer falar com ele, porque quem resolve as coisas mais difíceis é a minha mãe. E minha mãe não vai querer falar com ele, porque vai estar internada pelo susto. A campainha toca. Do olho mágico, vejo ele puxando de dentro de um livro e guardando no bolso uma fileira animada de camisinhas. Me sinto ofendida: esse menino tá achando mesmo que vou transar com ele? Eu era virgem aos quatorze e assim fiquei até os vinte e um anos de idade. Mas o Márcio, o garoto mais popular e bonito e charmoso e gente boa da escola, estava na minha casa. Abro a porta. Vejo que ele trouxe os livros de química, física e gramática. Tentando parecer descolada mas tremendo muito, pergunto qual matéria ele quer estudar primeiro. Qual? Ele ri, ensaiado: anatomia. E me empurra pro sofá. E vai direto pros meus peitos, sem nem me beijar na boca. Ah, então acho que é assim, né? Que se trata uma puta ou alguém de quem não se gosta.Aquilo tudo me faz mal demais. Se eu fosse uma princesa, teria um namorado pra ir ao shopping. Mas como sou a garota estranha, ele tenta ver meus peitos. E como eu sempre tive curiosidade em saber como era estar com um garoto realmente lindo e desejado, eu deixo. Mas se eu fosse uma princesa, ele estaria agora nervoso pra pegar na minha mão. Triste, triste, vou ficando tão triste. Por que não sou uma princesa?De repente. Puft. Scatapuft. Trililililim. Não sou mais a garota de treze ou quatorze anos, estranha, com o peito direito pra fora e um garoto inexperiente e afobado em cima deles. Estou ao lado da cena, escrevendo esse texto. Márcio é um ótimo personagem para uma historinha. A garota de calcinha de renda branca que mandou a empregada embora é uma ótima personagem também. Não sinto que ele tenta abrir a minha calça, mas leio "ele tenta abrir a calça dela". Não sinto que ele começa a querer enfiar sua mão dentro da minha calça, mas leio "e ele começa a enfiar a mão dentro da calça dela". E fico feliz quando, no parágrafo seguinte, descubro que a garota levanta e grita "chega, desculpa, mas eu não consigo, vai embora, por favor, eu não sei o que me deu de deixar você vir aqui". Márcio, frustrado e muito tímido, veste sua roupa, devagar, como que tentando ainda pensar em algo que salvasse sua tarde de sexo selvagem. Muito provavelmente a primeira. Ela fica deitada, com a camiseta e a alma amassadas. Márcio vai embora. Ela sente uma dor profunda e se promete duas coisas: um dia vou ser uma escritora e um dia vou ser uma princesa.

A chance

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Ontem quando liguei para o táxi percebi que era uma daquelas chances. Fico meio rouca e meio calma. A voz sai divertida e as pessoas riem de mim mesmo que eu diga apenas o nome e o número de uma rua. É tão agradável que gosto como se eu fosse uma amiga nova e simples, dessas que a gente tem vontade de viajar pra praia e falar besteira enquanto cutuca cascões no pé. Eu era uma dessas garotas sempre sorridentes que a gente, quando encontra, abraça como se tomasse o resto da Coca-Cola no gargalo. É pessoal e ao mesmo tempo ninguém aguenta não fazer. Dá vergonha e tem seu charme. Umas dessas garotas que nitidamente foi feliz na infância porque o pai conversava no fresquinho da noite sobre como a vida não precisa ser assustadora. Dessas meninas que quando alguém quer explicar, começa falando de si mesmo. Quando o táxi chegou na festa e eu, num ímpeto que nem sei o nome, beijei e abracei todos da entrada gostando de gente como nunca gosto, percebi que era uma daquelas chances. De tudo o que posso ser, essa é a que me vem com menos frequência. A garota corada, quase a Moranguinho que eu tinha quando era criança. A garotinha beija e abraça e gosta e ouve todo mundo. Olha a fulana. Olha o cara. Pessoas. E quando ela vem fico nessa certeza, até um pouco doída, de que não existe nenhuma outra mais verdadeira. E que todo o resto, todo o enorme resto, é só para guardá-la intacta em algum lugar onde as janelas são anti tudo. Mas quando alguma coisa esquece a porta aberta e a noite é quente demais para deixarmos as crianças medrosas, ela escapa. E é lindo. Quando os carrascos de fora e de dentro dormem, quando é feriado no planeta do afasta e repele e rebate. Ela sai. E é lindo. Porque a maldade do mundo inteiro entende que não se brinca com as exceções da vida. E nada de mais acontece.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Eu sou escrota porque tenho mãe

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Descobri a verdade mais terrível da minha vida: eu sou escrota porque tenho mãe. Se você me visse, visse a pose com que ando pelas ruas, com que brigo em lojas que me atendem mal, com que exijo silêncio da minha vizinha, com que meto meu carro em cima de gente folgada, com que grito com telemarketings, com que dispenso garotos burros. Você diria: aí vai uma menina corajosa, destemida e meio escrota. Talvez muito escrota. Não estou nem aí. No final das contas, minha mãe divide comigo o ódio que sinto de tudo o que dá errado na vida. De tudo o que é chato. Ela escreve cartas inteligentes metendo o pau na minha vizinha e entrega para o síndico, ela corta manga e melão pra mim e manda para a minha casa, pela minha empregada. Ela dá risada e concorda: “não tem mesmo homem a sua altura, minha filhinha”. Agora que moro no Rio de Janeiro (sim, eu tirei aquele texto metendo o pau na cidade a pedido dos queridos leitores cariocas mas ainda não me convenci de que vou ser feliz aqui) me sinto uns 90% menos escrota e descobri que sou escrota apenas porque tenho mãe. Sem mãe por perto virei um gatinho medroso. E pior: fico querendo que todo mundo seja minha mãe. Se o porteiro me trata mal, ou o taxista, ou o cobrador, ou algum roteirista do programa que estou escrevendo para a Globo, não consigo ser escrota com eles. Apenas guardo tudo para a hora do banho e choro como se eu tivesse cinco anos. Perdi meu poder de ser filha da puta (como é bom escrever palavrão, no blog eu não posso!!!). Eu só era filha da puta porque tinha minha mãe por perto. Não que ela seja puta, mas é uma puta mãe. Eu era filha da puta por causa da minha mãe. Agora fico nessa lama querendo que o caixa do restaurante aqui da frente do hotel me pergunte se “papei tudo”. Outro dia a garçonete me ofereceu um pedaço de pudim e eu quase chorei de emoção: será que ela quer ser minha mãe? Depois, quando ela me cobrou 12 reais por um pedacinho de merda de pudim, me lembrei que nesse mundo todo mundo quer é mamar nas suas tetas, mas oferecer um ombrinho ninguém quer não. Eu era escrota porque tinha mãe. Se eu batesse o carro, ela arrumava. Se eu tivesse febre, ela tirava. Se eu arrumasse uma merda de homem que não me desse valor, ela dava. Se eu chorasse, ela chorava mais ainda, tanto que eu acabava rindo. E se eu sentisse um vazio de merda dentro de mim, ela fazia pão de queijo. Pão de queijo te infla por dentro e resolve esse papo de vazio existencial. Eu era escrota porque tinha mãe. Agora, fico torcendo pro taxista não querer me estuprar ou, pelo menos, não vir com o papinho furado de taxas entre bairroxxxxxxx. Fico torcendo pro cara do ônibus não roubar meu laptop. Fico torcendo para os meus colegas roteiristas escutarem só um pouquinho algum drama meu, pessoal. Porque preciso, ainda que por um segundo, ainda que de mentirinha, que alguém seja minha mãe. Porque o mundo virou um lugar não maternal. O Rio de Janeiro não é maternal.
Essa geladeira de merda do hotel só tem água e cerveja. Sendo que a água custa seis reais. Uma garrafinha de merda! E pra piorar tem uma camisinha na cabeceira da cama. Motel e hotel no Rio de Janeiro são a mesma merda? Outro dia achei uma mancha “sinixxxxxtra” no meu edredon. Quero minha casa, quero minha mãe. Quero a geladeira da minha mãe, com frutas cortadas. Quero meu personal, a moça que me faz drenagem, a minha aula de yoga, os meus amigos da Ed. Abril, das agências que trabalhei. Quero minha cama com borboletas coloridas em cima, não esse quadrinho vagabundo com o Pão de Açúcar aquarelado. Ao lado da minha cama eu tinha preces budistas e não um pacote de camisinhas. É triste morar em hotel. Longe de casa, da Lolita, dos meus amigos, das frutas picadas e da minha mãe. E aturar os cariocas tirando sarro de absolutamente tudo da minha existência. E eu só querendo um pouco de colo, um lençol que tenha meu cheiro. Sei la. Eu era escrota porque tinha mãe. Porque eu me sentia bonita mesmo descabelada, porque eu me sentia inteligente mesmo rebolando pra fazer graça pra ela. Porque se eu acordasse no meio da noite achando que ia morrer, era só ligar que ela vinha correndo. Nunca morri, mas vai que um dia eu morro! Pior seria morrer nesse quarto de hotel, entre as camisinhas, as águas caras e esse edredon sinixxxxtro. E longe da minha mãe. Eu era escrota porque morava a dez minutos da minha mãe, agora que moro há 55 minutos de Varig e 48 de TAM, eu só quero que esse Cristo de braços abertos me dê um abraço. Ou que alguém me ofereça um pudim de graça. Ou melhor: quero voltar a ser escrota. Quero voltar a não sentir medo de nada. Quero voltar a dormir embaixo das borboletas.

domingo, 28 de agosto de 2011

O Jogo

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Entenda de uma vez por todas: eu não agüento mais fingir que não te quero. Cansei de fazer o seu jogo. De fingir que não estou nem aí. De me segurar cada vez que tenho vontade de te ligar pra falar de nada. De fingir que não te vejo toda vez que a gente se encontra por aí sem querer. Quer saber a verdade? Eu gosto de você. E, por mais que doa em mim admitir isso, acho que passou da hora de eu te dizer.Assumo: não sei jogar. Sempre que tento, perco. Sempre que jogo, me jogo. Arrisco. Não sei falar frases pela metade. Não sei gostar pela metade. Não sei estar com alguém pela metade. E muito menos vou aceitar suas metades. Cansei de ser a sua segunda opção. De ser o seu refúgio da madrugada. Cansei de ser a carinha bonitinha que você encontra de madrugada e jura amor eterno.Posso repetir quantas vezes for preciso pra você entender: suas palavras não valem nada. É sua atitude que conta. Se amar for isso, então, vá amar outra mulher. Vá fazer outra de trouxa. Vá jurar amor eterno numa noite e ser visto com outra mulher no dia seguinte. Sinceramente, não entendo.Se me ama, me prove. Coloque seu coração à prova. Porque eu cansei de colocar o meu. Cansei de dar a alma pra bater. Cansei de esperar por seus telefonemas. De esperar por você. De acreditar em você. Você diz que me ama mas nem ao menos me conhece. O que você sabe sobre mim? Meu nome? Meu sobrenome? Que eu gosto de chocolate? Que eu gosto de música eletrônica e de Madonna? Pouco. Você não me conhece. Não conhece meus sonhos. Não esteve no meu passado e é muito provável que não esteja no meu futuro.Sabe de uma coisa? Eu mentia pra você quando me mostrava apenas como um corpinho legal. Tudo mentira. Aqui neste corpo, meu bem, tem uma cidadã completa. A mesma cidadã que te abraça e faz carinho no seu cabelo enquanto você dorme. A mesma cidadã que esquenta seu corpo nas madrugadas quando seu celular só precisa discar um número. A mesma cidadã que te atende prontamente de manhã, de tarde e de noite. A mesma cidadã que responde todas as suas mensagens sexta-feira à noite enquanto espera, de você, um convite seu pra sair. A mesma cidadã que finge o tempo todo pra você que não te quer só pra fazer o seu jogo de não-querer. A mesma cidadã que se deixou levar pelo seu papo mole e agora percebe que o mais mole é você. A mesma cidadã que banca a durona do seu lado. A mesma cidadã que nunca vai jogar com você.Queria fazer o seu jogo, só pra ver você perder.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A garota mais perfeita do mundo

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Ele: Tô precisando do e-mail do seu namorado.
Ela: Pra que?

Ele: Quero me certificar que ele vai cuidar bem de você. Vou mandar umas palavras pra ele, porque se eu falar pessoalmente é perigoso eu fazer besteira.


Caro “novo namorado”,
Eu sei, eu sei, você deve está surpreso e com uma cara de idiota e querendo ficar bravinho, mas relaxa porque estou em missão de paz. Eu fui um estúpido com ela, confesso. Mas isso não vem ao caso, eu quero que você seja um bom garoto e a faça feliz. Com o tempo você vai conhecendo as manias dela, mas não custa nada eu facilitar pra você. Ela é teimosa, e se misturar com o orgulho, ela fica doente e ninguém desconfia. Então se ela der algum sinal de dor ou incômodo, a obrigue a tomar remédio. Ela adora vídeo game e entende de futebol, então treine bastante antes de encarar alguma disputa com ela, se não vai ficar feio pra você. Ela adora passear, andar por andar e tomar um sorvete, sem ser aqueles de pote. Mande flores e sempre a surpreenda, os olhos dela brilham com gestos pequenos e românticos. Não fique esperando ela correr atrás de você, porque ela não vai, ela gosta de demonstração de saudade. Fale coisas legais e românticas, a ponto de deixá-la sem graça. Ela fica linda quando fica sem graça, toda tímida e não sabe para onde olhar, e quando você menos espera ela faz um bico lindo. Abrace-a forte, passe segurança, demonstre que ela é única e nada dessa balela de especial. Mande sms sempre, até para perguntar o que ela almoçou, cuide até quando estiver longe. Se algo deixá-la triste não se afaste, nem se ela pedir, proteja e mostre que ela não está sozinha. Ela adora roupa curta, não se incomode muito com isso, porque se ela está com você, considere-se um cara de sorte, não é pra qualquer um. No meio de uma conversa boba, fale que a ama do nada e a beije logo em seguida. E se caso ela fique emburrada de repente, a pressione, até ela contar, porque ela sempre vai insistir em dizer que “não é nada”, depois a encha de carinho e a faça rir. Ela não sabe cozinhar, mas ama pizza. O sorriso dela é perfeito, com isso, não a faça parar de sorrir, faça ela feliz e cuide bem. Faça da sua felicidade a dela, porque ela vai fazer o mesmo por você. E não esquece que você é um cara de sorte, mas pode ser um cara morto se machucar ela.

Assinado: O ex namorado da garota mais perfeita do mundo.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Amar é Punk

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Eu já passei da idade de ter um tipo físico de homem ideal para eu me relacionar. Antes, só se fosse estranho (bem estranho). Tivesse um figurino perturbado. Gostasse de rock mais que tudo. Tivesse no mínimo um piercing (e uma tatuagem gigante). Soubesse tocar algum instrumento. E usasse All Star.Uma coisa meio Dave Grohl.Hoje em dia eu continuo insistindo no quesito All Star e rock´n roll, mas confesso que muita coisa mudou. É, pessoal, não tem jeito.
Relacionamento a gente constrói. Dia após dia. Dosando paciência, silêncios e longas conversas. Engraçado que quando a gente pára de acreditar em “amor da vida”, um amor pra vida da gente aparece. Sem o glamour da alma gêmea. Sem as promessas de ser pra sempre. Sem borboletas no estômago. Sem noites de insônia. É uma coisa simples do tipo: você conhece o cara. Começa, aos poucos, a admirá-lo. A achá-lo FODA. E, quando vê, você tá fazendo coraçãozinho com a mão igual uma pangaré. (E escrevendo textos no blog para que ele entenda uma coisa: dessa vez, meu caro, é DIFERENTE).
Adeus expectativas irreais, adeus sonhos de adolescente. Ele vai esquecer todo mês o aniversário de namoro, mas vai se lembrar sempre que você gosta do seu pão-de-sal bem branco (e com muito queijo). Ele não vai fazer declarações românticas e jantares à luz de vela, mas vai saber que você está de TPM no primeiro “Oi”, te perdoando docemente de qualquer frase dita com mais rispidez.Ah, gente, sei lá. Descobri que gosto mesmo é do tal amor. DA PAIXÃO, NÃO. Depois de anos escrevendo sobre querer alguém que me tire o chão, que me roube o ar, venho humildemente me retificar. EU QUERO ALGUÉM QUE DIVIDA O CHÃO COMIGO. QUERO ALGUÉM QUE ME TRAGA FÔLEGO. Entenderam? Quero dormir abraçada sem susto. Quero acordar e ver que (aconteça o que acontecer), tudo vai estar em seu lugar. Sem ansiedades. Sem montanhas-russas.Antes eu achava que, se não tivesse paixão, eu iria parar de escrever, minha inspiração iria acabar e meus futuros livros iriam pra seção B da auto-ajuda, com um monte de margaridinhas na capa. Mas, CARAMBA! Descobri que não é nada disso. Não existe nada mais contestador do que amar uma pessoa só. Amar é ser rebelde. É atravessar o escuro. É, no meu caso, mudar o conceito de tudo o que já pensei que pudesse ser amor. Não, antes era paixão. Antes era imaturidade. Antes era uma procura por mim mesma que não tinha acontecido.Sei que já falei muito sobre amor, acho que é o grande tema da vida da gente. Mas amor não é só poesia e refrões. Amor é RECONSTRUÇÃO. É ritmo. Pausas. Desafinos. E desafios.Demorei anos pra concordar com meu querido (e sempre citado) Cazuza: “eu quero um amor tranqüilo, com sabor de fruta mordida”.Antes, ao ouvir essa música, eu sempre pensava (e não dizia): porra, que tédio!Ah, Cazuza! Ele sempre soube. Paixão é para os fracos. Mas amar - ah, o amor! - AMAR É PUNK.

Encontros e Desencontros

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(até quando você vai dar desculpas para os seus medos?) Percebo que, hoje em dia, as pessoas estão muito exigentes em relação ao amor. Qualquer passo em falso: Adeus! Não aceitamos erros alheios. Não aceitamos qualidades no outro que, pra nós, sejam defeitos. Queremos que todos estejam conectados com nossas expectativas, que estão altíssimas e não param de crescer. O que nos é possível, não nos interessa. Almejamos o perfeito. O irreal. O ilusório. Queremos sempre o melhor, mesmo que o “melhor” não se adéque à nossa vida.Vivemos – na verdade - na era da Intolerância. Do imediatismo. Da falta de paciência. Seja com downloads lentos, celulares fora de serviço. Ou pessoas que não seguem o nosso ritmo. No meio do caos, esquecemos o essencial: para se relacionar, é preciso tempo. Tolerância. E uma boa dose de bom senso. Não, pessoas não são descartáveis. Não existe manual, nem informações no rótulo. Quer saber? Todo mundo tem lá seus “defeitos”. Mas, nessas horas, não existe “loja autorizada”, nem garantia. No máximo, uma terapia ou um bom ombro amigo pra se reajustar.Agora, minha pergunta: porque andamos, assim, tão exigentes? Será culpa da tecnologia e sua crescente evolução? Será falta de auto-conhecimento e amor próprio? Será que, no fundo, temos medo de amar e nos autoboicotamos com situações que nunca vão dar em nada?Pode ser um pouco de cada coisa. Outro dia, ouvi uma frase interessante de uma amiga: o dilema da mulher moderna é saber, ao certo, o que ela procura. Porque, se ela procurar, vai achar! Achei de uma sabedoria incrível. E pensei: ao dizer isso, sei que muita gente vai me criticar. Mas pense comigo: será que estou, de fato, errada?Não, não vamos colocar a culpa no outro. Se as coisas não estão dando certo, temos grande responsabilidade sobre elas. Não vamos começar nosso discurso manjado que queremos viver o amor, quando, na verdade, atraímos pessoas problemáticas, instáveis e avessas a compromisso. Se isso acontece uma vez ou outra, tudo bem. Do azar no amor, ninguém foge.Mas se o padrão prevalece, então, está na hora revermos nossos conceitos. A gente acha o que – na verdade - procura. Se encontramos pessoas (e amores) que só nos trazem infelicidade, angústia e ansiedade, o melhor a fazer é nos voltarmos para dentro. E repensarmos quem somos. E o que realmente queremos.Olha, eu não sou psicóloga, nem dona de nenhuma verdade. Adoro lugar comum, gosto de escrever sobre o que meu coração dita. Sei que ninguém gosta de aceitar suas culpas, muito menos admitir quando faz escolhas erradas. Mas, se estou aqui hoje, dando a cara à tapa, é porque descobri que me boicotei durante muitos anos. É, fugi do amor com medo de perder minha liberdade. Ou com medo de perceber que ter um relacionamento não traz garantia nenhuma de felicidade. (Adeus sonhos de adolescente!).Agora, eu vejo que viver o amor nada mais é do que conhecer a si mesmo profundamente e entender quem a gente é. E o que nos faz bem.Portanto, antes de colocar a culpa da sua vida amorosa no outro. No destino. Em algum karma. Ou em qualquer lugar fora de você, PENSE BEM.Nós encontramos FORA o que – na verdade – MORA AQUI DENTRO.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Atalho

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Não me completo porque eu quero que seja meu o que já pertence aos outros e porque todos já pertencem, de alguma forma. Ninguém mais é virgem de alma. Carregam por aí paixões mal resolvidas, soluções mal apaixonadas, são metades vazias que não podem completar vida nenhuma.Às vezes sinto que sou espécie de atalho: ajudo no caminho sem nunca ser o ponto de chegada. Não sou destino, apenas distração. É a mim que recorrem os interessados em outras. Usam-me para teste, fazem-me de ensaio, levam minha proteção e cospem minha carne mastigada quando já não lhes serve mais. Devolvem um coração pisoteado que depois só pensa em se fechar de vez para qualquer sentimento do mundo.Eu ensino amor. Permita-se, eu digo, seja livre dos conceitos alheios e encha o peito de verdades, sinta. E quando finalmente compreendem o que estou dizendo, compartilham isso com outra pessoa. Entregam meu amor, o amor que eu criei, para alguém mais simples e de riso fácil, que não se sente só no meio dos outros. Tudo bem, eu entendo. Porque é chato ficar perto de quem nunca se satisfaz. É cansativo lidar com tanta melancolia. Mas tem mais que isso dentro de mim. Tem um cansaço que só quer um colo pra se desfazer. É isso, minha cura é um abraço. Dois braços, um coração, e o que mais vier junto.

Nua e Crua

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Eu queria ser famosa. Estampar as capas das revistas com minha felicidade instantânea e dizer que estou ótima depois de uma separação traumática. Queria ir pro Big Brother e fazer melhores amigos em uma semana. Queria dizer que amo com um mês de namoro. Queria achar super normal que o cara que eu amo conversa no MSN com mulheres que ele acha gostosas. Queria que, quando alguém me chamasse de gostosa, isso fosse um elogio ao meu caráter e não um “eu te comeria se você me desse mole”. É provável que eu fosse mais feliz assim.Mas eu sou tradicional. Sou convencional, apesar de não ser normal. Se eu me corto, eu sangro. Se bato o dedo no pé da mesa, dói. Sou uma pessoa comum. Acredito no até que a morte nos separe e também no eterno enquanto dure. Acredito que, se eu sou capaz de ser fiel, alguém mais pode ser. Acredito que eu não sou uma laranja, mas preciso da minha outra metade pra me sentir inteira. Valorizo as pequenas atitudes, assim como condeno pequenas mancadas. Sou rancorosa, guardo por anos uma coisa que me magoou de verdade. Sei perdoar. Passo por cima dos erros pra ficar junto das pessoas que eu gosto. Tenho meus limites. O primeiro deles é meu amor-próprio. Perdôo uma vez, porque errar é humano. Perdôo duas porque o ser humano é estúpido às vezes. Mas não posso viver perdoando porque isso seria incompetência minha.Acredito que as pessoas aprendem com os próprios erros e com o tempo. Acredito também que quem traiu uma vez e foi perdoado vai trair de novo. Acredito que aquelas pessoas que vivem falando mal dos outros vão falar mal de você com esses outros. Acredito que as pessoas só mudam por vontade própria e nunca pelo pedido de outra pessoa. Acredito que tudo que eu acredito hoje vai mudar com o tempo. E que, no futuro, talvez, eu acredite em menos coisas. Ou em nada mais.Nunca vendi meu corpo, nem nunca sequer considerei essa possibilidade. Eu sei exatamente o tipo de homem que sai com puta. E esse tipo me dá náusea. Nunca precisei experimentar drogas pra pertencer a nenhum grupo. Me dou bem com todo tipo de gente e as pessoas costumam gostar de mim apesar do que eu sou. Tenho verdadeira repulsa por homem mulherengo. Detesto aquele tipinho “caminhoneiro” (que fala pra esposa que tem uma em cada ponto, mas ela é a única que ele ama). Detesto mulher corna que se explica pras pessoas “mas ele me ama”. Sexo com outras pessoas só é perdoado quando é o homem que faz. Detesto homem machista. Detesto o tipinho que vai pra farra enquanto a mulher tonta espera em casa. Detesto mulher tonta.Eu queria ser famosa pra fingir que não sinto dor. Pra fingir que sou perfeita na capa das revistas masculinas. Pra fingir que não preciso fingir. Queria ser famosa pra ser uma fruta e não uma cabeça que pensa. Mas escrever nunca deu dinheiro, nem capa de revista, nem melhores amigos no Big Brother. Escrever é pra pessoas de quinta como eu, que não vão fazer seu primeiro milhão vendendo o que tem no meio das pernas pra adolescentes de 30 anos de idade. Queria ser famosa pra experimentar uma vida que, dizem por aí, é melhor que a minha. Queria ser famosa pra ver se eu conseguiria ser eu.

Amor,Jazz e Vinho barato

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Das duas, uma.Ou você leu meu manual de instruções ou você tem uma bola de cristal em perfeita sintonia comigo. Só pode ser. Porque não é possível alguém ser assim. Alguém que me trata como uma princesa. Que faz todas as minhas vontades. Que despenca de tão longe pra me ver por tão pouco. Não é possível alguém ser tão tudo de bom e fazer tão do jeito que eu gosto. Não é possível uma sintonia tão fina. Uma panturrilha tão grossa. Uma cabeça tão macia.Eu sabia que esse dia ia chegar. E chegou como um samba de carnaval. Me arrancou do chão. Aumentou minha pulsação. Me levou junto. Eu sabia que um dia eu ia fazer tudo certo. E agora eu entendo porque. Porque agora todas as peças se encaixam e não falta mais nada. Você fez a aposta. Eu perdi.Perdi noites de sono em baladas freqüentadas por garotas de saias e cabeças pequenas. Por playboys deslumbrados, com algum dinheiro e nenhum pedigree. Por corpos sarados e mentes doentes. Festas com muita pose e pouca atitude. Com convites que custam caro e pessoas que se vendem por tão pouco. Me perdi e não encontrei ninguém. Torrei meu dinheiro e minha paciência. Estourei meu cartão de crédito e, por pouco, não estouro meus tímpanos.Mas, quer saber? Cansei de música alta. Prefiro quando você fala baixo no meu ouvido. Prefiro ficar vendo os aviões brancos dando rasantes sobre nossos corpos tintos. Prefiro você suave. Prefiro o silencio dos seus olhos me dizendo que me ama. Prefiro seu violão de madrugada. Prefiro você dedilhando. Prefiro quando você se perde nas notas. Prefiro sua música, seu tom.Por você, eu dei uma nova chance a mim mesma. Eu dei minha cara a tapa. Por você, eu voltei a acreditar no amor adolescente e a ter calafrios na espinha. Por você, parei de ler seus textos e comecei a ter ciúme. Por você, posso largar a música eletrônica e aprender a gostar de jazz. Por você, eu largo os vinhos baratos, os xampus caros e as roupas curtas. Porque quando você está dentro, não existe mais nada lá fora. O mundo acaba aqui, na gente. Porque você me faz tão sua. Porque você me faz tão eu.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Vontade não sei do que

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Abro a geladeira e fico olhando para o desfoque de possibilidades. Não foco em nada porque não sei exatamente o que eu quero. Será que a gente pensa que a geladeira é um portal para outro mundo? E que ao abri-la a gente vai descobrir para onde quer ir ou o que quer da vida? Da gaveta de ovos (pra que existem gavetas de ovos?) pularia um sábio indiano e me diria: você só precisa ter calma e não desejar tanto. Do desejo é que saem as angústias. E eu crente que ele ia filosofar sobre quem veio primeiro. Se foi o ovo ou a galinha. Ou então, pularia a Clarice Lispector. E me recitaria aquele conto maluco do ovo. Dá onde a gente tira que a geladeira alimenta a nossa alma e a nossa mente? Se ela mal alimenta nossa fome mais óbvia e superficial.Minhas vontades, sempre infinitas, passam muito rápido. E aí eu fico achando que eu não sei ter vontades. Que eu não mereço as minhas vontades. E me sinto sempre uma traidora prestes a desistir ou a enjoar de algo que nem deu tempo de acontecer. E aí fico com preguiça ou mesmo falta de coragem para ter novas vontades. Se elas vão passar, para que raios elas servem? E então me pergunto. Se amor passa, de que serve senti-lo? Tinha tanto medo de perder as pessoas e agora vejo que fiz de tudo para perdê-las.O amor curte esses pequenos momentos porque a vida acaba, mas nós acabamos ainda muito antes. E sou interrompida mais uma vez por essa vontade automática de olhar minha caixa de e-mails. Ou de comer mais um quadradinho da barra de alpino. Ou de dar um gole pesado e alongado na água e pedir, sem nem saber, que ela abaixe minha bola um pouco e eu volte a ficar humilde. Sempre tomo água sem humildade como se desse um trago em um cigarro. Ninguém traga com humildade. É a cena mais banal do mundo, mas, sei lá porque, me sinto sempre uma estrela sedenta quando dou meu gole cheio de tédio em um copo com água.E aí se vão alguns minutos em que desejei apenas coisas automáticas ou fisiológicas. E nem assim, alguns minutos em que eu não tenha sido escrava do meu desejo absoluto e insuportável em ser algo grande e não banal. Ou ser algo de uma banalidade tão verdadeira, que choque as pessoas. Não paro de querer algo, que eu nem sei ao certo o que é, nem quando limpo uma gotinha no canto da boca. Não, não tem nenhum e-mail interessante. Que me enfie num carro acolchoado e me leve por uma estrada florida. Nenhum e-mail cocaína. Que me faça sentir o máximo e absolutamente feliz sozinha. E absolutamente cheia de amigos e amores. E absolutamente. Sei lá.Nunca experimentei cocaína. Mas tenho noção de que sou uma viciada em esperar que algum humano me faça sentir algo bom e que me tire daqui. E então sou tomada por uma vontade maluca de abraçar minha mãe tão forte que eu entraria de volta para dentro dela. Mas não posso. Não posso porque isso seria voltar a estaca zero. E então eu me abraço fingindo coçar os braços. E daqui a pouco mais essa vontade também passou. E eu fiquei um pouco mais forte ou um pouco mais fraca. Nunca sei. E a Vanessa da Mata canta a minha música. Que tudo o que eu quero dar é pesado, é demais, não há paz. E na voz dela até que eu mereço perdão. Até que eu devo ter jeito. Eu peso mil quilos. Mas adorava contar a piadinha de que fulana era ainda pior porque era gorda de verdade. Antes uma chata que uma gorda de verdade. Vontade de ser do mal. Vontade de ter com quem ir para Tiradentes. Sabe, a cidade histórica? Não conheço. Nem conheço ninguém com quem eu iria para lá. Estou com vontade de comer . Apesar de ser ansiosa ,E aí vamos rir a valer e depois bocejar de preguiça de voltar para a casa sozinhas. E também essa vontade passará. E então vou ter uma vontade de estalar o pescoço no meio da noite. E vou ficar um pouco feliz porque descobri que não é uma cama metade vazia e sim uma cara inteiramente cheia de mim. E vou ficar cheia de mim. Com tudo o que isso tem de bom e de ruim. E vou finalmente ter vontade de parar de pensar, por alguns minutos.